Na crista do Galo


“Ai não pagaste ali, pagas aqui!” Foi o que aconteceu. Bem-vindos ao Laos e aqui não refilem muito, se quiserem entrar.

Entregámos os passaportes, pagámos os vistos e dirigimo-nos à sala dos carimbos. Sem eles não podemos entrar no país e para tê-los, temos de pagar.

- 2 dólares cada um. – Disse-nos um dos guardas trombudos.

- Não é a primeira vez que entramos no país. Sabemos que não temos de pagar nada. – Se resultou num lado, tem de resultar no outro.

- 2 dólares cada um. – Insistiu sem retribuir o sorriso.

De nada valeu reclamar e estrebuchar. Tivemos de pagar… Não podiam carimbar na altura que pagamos os vistos? Se o visto está pago, é sinal que podemos entrar no país, certo? Esses 2 dólares são para quem? Detesto polícias!

- Tenha um bom jantar com o nosso dinheiro. – Assim me despedi e recebi um sorriso.

Mau começo. Não deixámos que este acontecimento afectasse o nosso dia. Não servia de nada reclamar. Alimentámos os bolsos daquele guardas e pronto. Que sejam felizes!

A nossa primeira bela paragem foi em Don Det, numa das 4 mil ilhas. Maravilha das maravilhas! Passámos três noites e se pudéssemos, teríamos ficado muito mais, mas o tempo não nos permite tais luxos… O Laos terá de ser feito a correr, ou melhor, a pedalar como doidos para podermos sair a tempo.

Escolhemos um quartinho bem humilde com vista para o Mekong. Repouso absoluto! Tínhamos uma pequena varanda, onde tomávamos o pequeno-almoço e preparávamos o jantar, onde líamos e escrevíamos no portátil, onde lavámos as meninas e onde o Rafael remendava os muitos furos que teve… O pobre… É a sina!


Pedalámos pela ilha e estávamos rendidos. A exploração terminou quando o Rafael caiu numa pequena descida com forte inclinação. O forte dele é arriscar e atirar-se de cabeça a desafios cheios de adrenalina. Muitas vezes correm mal, e esta não foi excepção! Eu consegui ver o filme todo, mesmo antes deste acontecer. A roda de trás levantou fazendo uma bela égua aos coices. Catrapus-pus-pus! Belo tombo!

- Estás bem? – Perguntei para saber se podia ou não soltar fortes gargalhadas.

- Sim, acho que sim. – Respondeu sem se mexer.

Pronto, não partiu nada e este foi o sinal para começar com a galhofa! Hora das fotografias, e de um pequeno filme. A galhofa terminou quando quis desligar a máquina e esta não desligou… A objectiva não fechou mais… Aconteceu o mesmo problema que tinha acontecido à G10 do Rafael… Fiquei sem máquina! Não queria acreditar. Fim do passeio. Voltámos para o quarto com umas trombas de elefante, tentando não pensar no assunto. Aconteceu, aconteceu, pronto, nada a fazer…

Eu estava numa de pouco sair, pouco visitar. Queria aproveitar aquele ambiente tranquilo da ilha e fazer pequenas coisas: ler, desenhar, beber uma Beer Lao e escrever para o blogue.

O Rafael voltou a sair com a bicicleta e pedalou até outra ilha, onde visitou umas cascatas. Fiquei arrependida de não ter ido com ele, quando vi as fotos. Precisávamos de mais tempo na ilha. Mas o tempo... o tempo...

- Vi um terreno incrível com uma casa desabitada. Tenho de saber o preço. Ainda nos mudamos para o Laos! – Estava entusiasmado.

Pegámos nas bicicletas e lá fomos nós, sonhar um pouco. O terreno é mesmo fantástico e tem um óptimo acesso ao rio. Fomos dar um mergulho e decorámos o espaço com os olhos. Um dia quem sabe…

Fim da boa vida. Voltámos a colocar as meninas no barco e metemo-nos à estrada. Foram 8 dias a pedalar sem descanso! 100 quilómetros, 48, 80, 78, 75, 71, 93, 110 quilómetros… isto dá uma média de 82 quilómetros por dia. Não é muito, mas para mim é! Parámos em sítios incríveis que dava vontade de ficar mais que uma noite mas o tempo… o tempo… Ficámos em sítios que dizíamos “Era capaz de morar aqui por uns tempos”! Estávamos a gostar do Laos mas o tempo… o tempo… As casas continuavam com pernas, mas bem mais bonitas que no Camboja. As pequenas aldeias atraem-me/atraem-nos!

Parámos em Champasak e visitámos as ruínas de um antigo templo hindu que foi transformado em templo budista. Estas ruínas são bem mais antigas que Angkor Wat mas se as deixarmos para depois, não impressiona tanto. A vista que se tem do topo, é incrível, mas as ruínas em si… São mais umas ruínas, mas são elas que chamam o turismo. Ora nós preferimos o passeio de bicicleta que nos levou até lá. Foram 8 quilómetros a cumprimentar as pessoas, a admirar as pequenas casas, mas a desiludir-nos com a forte aparecimento de casas em cimento e sem pernas… O país está a desenvolver e quer à força, ganhar semelhanças com o ocidente. Nós é que queremos que se mantenha sempre autêntico!



De nova à estrada e fizemos um pequeno desvio. Não foi cortar caminho, nisso já não caiu mais! Foi mesmo um desvio para ver cascatas. Ao que parece, é um trajecto obrigatório e bem conhecido. Parámos nas primeiras cascatas e fomos ver a água a cair. Quando vimos as escadas que tínhamos de descer, desistimos da ideia. Já tínhamos pedalado muitos quilómetros e estávamos com as pernas feitas em pedra e as escadas, nestas situações, são as nossas piores inimigas! Tirámos uma fotografia ao longe e fomos de novo para a estrada, procurar um sítio para montar a tenda.

Parámos em Paksong, onde supostamente existem mais cascatas. Já chegámos tarde e a más horas… Estava escuro e não nos foi dada a autorização para entrar, pois há um horário a cumprir. Teríamos que esperar pelo dia seguinte, pagar entrada, pagar o estacionamento das bicicletas e ver o que a natureza tem de bonito. Não temos tempo para esperar… ai o tempo… o tempo… 

Estava escuro e eu detesto pedalar no escuro. Tentei pedir a uma senhora para montar a tenda mas não estava a perceber o sinal que ela me fazia com a cabeça. Mantinha o sorriso e, na minha cabeça, ela estava a dizer sim, mas o Rafael que não queria muito ficar ali, insistia em dizer que aquele sinal queria dizer não. Descobri dias depois que ele estava redondamente enganado!

Estava a pedalar sem vontade e chateada com o Rafael. “Um desvio para ver cascatas, eu que não ligo a isso. Já vi as cascatas de Niagára, já chega! Ai não me ajudaste a pedir para montar a tenda, fui eu que fiz a mímica todas e fomos embora, mesmo tendo a senhora e o marido, dito que sim. Quero ver agora onde vamos dormir. Ver cascatas… puff” o meu pensamento andava a mil e a insultar o meu parceiro.

Continuámos no sobe e desce da estrada e o Rafael disse-me para parar quando viu um possível terreno para acampar. Desta vez, foi ele fazer a mímica. Resultou, montámos a tenda, preparámos o jantar e voltámos a falar. Não podemos ficar muito tempo chateados, nem conseguimos…

Nova paragem para ver outra cascata! Desta vez, conseguimos vê-la. Foi em Tad Lo. Mais um sítio espectacular e melhor que a cascata – que sim, é bonita – é a aldeia em si. Tinha vestido a típica saia do país, o que deixava as senhoras bem contentes. As crianças cumprimentavam com sorrisos, os cães procuravam os nossos mimos, os porcos e as vacas passeavam-se livremente, e as mulheres iam de cesto na mão, tomar o seu banho no rio. As crianças levavam o regador que servia de chuveiro. Gosto de os observar.

O nosso quarto tinha uma pequena varanda. Sabe bem ter uma varanda que não nos obriga a ficar fechados no quarto. Aproveitámos para aperfeiçoar as nossas obras de arte, com garrafas de plástico e aumentar o nosso jardim zoológico. Não podemos mostrar muito, pois perdemos as fotos desta noite… do dia seguinte, e do outro…  

Lemos que em Tad Lo o turismo é em demasia… Não achámos. Achamos mesmo que é um sítio obrigatório a visitar.

Voltámos a olhar para o mapa. E voltámos a ver um corte…

- Eu não corto caminho! Já disse! Prefiro fazer mais quilómetros. – Relembrei.

A estrada estava no mapa e poderíamos cortar 40 quilómetros. Fomos às informações e perguntamos pelo estado da estrada. Foi-nos dito que é possível fazê-la. Não é alcatrão mas está em bom estado e é quase sempre plana. Ok, vamos cortar caminho que não é bem cortar caminho, é apenas escolher outra estrada.

Bela escolha! Pedalámos bem depressa e sem inalar poeira, pelo menos eu, pois comprei uma máscara como os locais usam. O Rafael usava os meus óculos azuis da piscina, para proteger os olhos. Tenho pena de não ter fotos… Estava numa linda figura e o dia foi bom! Pelo menos, diferente! Tirámos fotografias às crianças, fomos convidados para um chá e estávamos mesmo bem-dispostos!

Quando avistámos um rio, foi a festarola! Descemos até ele e fomos para um mergulho. Começámos por molhar os pezinhos. Caminhámos um pouco e sentámo-nos na água.

- Cheira mal ou é impressão minha? – Perguntei.

- Cheira a fossa, não cheira? – Perguntou o Rafael, concordando assim comigo.

Sim, cheirava mesmo muito mal! Cheirava a esgoto! Foi o sinal para nos levantarmos e fugirmos! Mas que cheiro que tínhamos entranhado na pele… Pedalámos depressa, pois devíamos ter uma nuvem de mau cheiro em nosso redor… Chegámos à estrada principal e mal vimos uma mangueira parámos. Não pensámos duas vezes. Estava na hora do banho, ali mesmo, mesmo em frente a todos que passavam! E assim, demos por concluído o dia. Fomos à procura de uma Guest House mas não gostámos dos preços.

- Queres experimentar pedir para acampar num templo budista? – Perguntei, sabendo à partida que não nos seria negado o pedido.

Assim foi. O Rafael pediu e recebeu um sim. Montámos a tenda e cozinhámos. Os monges mais novos – as crianças – olhavam-nos, contentes por estarmos ali. Não tivemos muito contacto com os monges. Eles sorriam, eram simpáticos mas deixavam-nos no nosso cantinho e quando as crianças se aproximavam muito, depressa saiam, ao mando de um mais velho. Foi pena, pois seria interessante podermos ter comunicado mais.

Partimos para um duro dia… duro para mim. As minhas pernas não obedeciam e sentia-me muito cansada. Cansada fisicamente e psicologicamente. Parecia um caracol a arrastar-me lentamente com a casa às costas. Sonhava com comida: queijo, lasanha, puré de batata, seitan no forno, até frango de churrasco tive desejos de trincar, batatas fritas com queijo derretido... Pensava no regresso: “O que é que vou vestir quando chegar? Nem sei onde tenho as coisas… O que sei, é que vamos comer, uma Francesinha vegetariana, no Chico, depois vamos ao Progresso comprar Éclaires, Bolas de Berlim… um café com nata no Gemini, e vou comprar pizzas da maca É para comer em casa do pai do Rafael! Hummm… Já não vejo o Rafael… Mas a bicicleta não evolui ou quê? Parece que estou a pedalar por cima de uma crista de galo! Estou farta deste sobe e desce… aaaaaahhhh!”

Confesso: Estou cansada… Ter a data de regresso já marcada, pesa muito. O tempo que temos não nos permite respirar os sítios onde paramos. Não podemos fazer grandes desvios para ver coisas, e o Rafael não foi na minha conversa quando lhe sugerir apanharmos um transporte, para podermos ter tempo para ver mais coisas e ficar mais tempo nos sítios. Não achou piada à minha ideia e não consegui entender o porquê… Estava a desejar uma boleia! A estrada era uma enorme recta sem nada, mas mesmo nada para ver. Encontrámos vários ciclistas que nos diziam:

- Apanhámos um transporte aqui, porque o caminho era muito mau e cheio de montanhas (…) Arranjámos boleia nesta estrada porque o centro do Laos é uma verdadeira seca…

Não andamos a pedalar como doidos (sou eu que sinto isso, pela pressão do tempo). “Esta é a altura perfeita para terminar uma viagem.” Pensava para comigo, mas depois há o Vietname que vem já a seguir e que quero conhecer. Ok, vou fazer mais um pequeno esforço e continuar caminho.

Em Tkahek, sabíamos que iríamos ficar um dia a descansar. Ainda tínhamos 200 quilómetros pela frente… No dia seguinte, tive um bom dia! As minhas pernas voltaram a ter forças e íamos a um bom ritmo. Conseguimos fazer 93 quilómetros com uma perna às costas! Parámos para almoçar com 70 quilómetros e conhecemos dois belgas que andavam à boleia. Passámos umas horinhas com eles e decidimos fazer mais quilómetros. Tínhamos que aproveitar a nossa boa disposição. Voltámos a parar num templo, onde sabemos que podemos ter um banho e isso sabe sempre bem, mesmo que seja água fria.

Este foi o templo mais estranho… Montámos as coisas mas a tenda não, pois disseram para ficarmos a dormir dentro do templo. Preparámos o jantar, e nisto, uma grande tempestade começou. “Ainda bem que temos abrigo” pensei. Estavam lá duas senhoras que se ocupam da arrumação da cozinha, vêem se precisam de alguma coisa do exterior e coisas assim. Uma delas, aproximou-se e disse-nos:

- Hotel. Go hotel.

Como? Agora que está escuro, que está a chover pedregulhos é que nos dizem isso?

- Não! Eles disseram que podíamos ficar aqui. Estamos aqui há várias horas, não é agora que nos dizem que temos de sair. Não podemos ir a lado nenhum com está chuva. – Queixámo-nos.

Não era muito justo termos de sair naquelas condições… Nem percebemos o problema daquelas senhoras! O certo é que ficámos, e no dia seguinte partimos bem cedinho. 

Mas um dia duro… Não queria fazer cento e tal quilómetros para chegar a Tkahek, preferia ter feito em 2 dias. “Se chegarmos hoje, podemos ficar um dia a mais.” Este meu pensamento ajudou-me a pedalar, mesmo sem vontade. Fui duro, arrastei-me lentamente pela crista de galo mas chegámos… e recebi umas belas massagens às pernas!

1 comentário:

Anónimo disse...

que viagem espectacular :)

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