Não sejam mãos largas


Depois de muito calor, de muito suarmos, de muitas canas-de-açúcar bebidas, de vermos que as quantidades de arroz frito com legumes são “bem boas” - enchem bem um prato, como nós gostamos - chegámos a Siem Reap, contentes por ser ainda cedo. Fomos à procura da Guesthouse que nos indicaram, mas não com o intuito de ficar - tínhamos encontro marcado com o nosso warmshowers.

Esperámos, esperámos e esperámos… Cheirávamos mal e não podíamos fazer nada em relação a isso. Tínhamos de esperar e pronto… Esperámos. Passadas 4 horas, chegou com mais um casal.

- Desculpem… Combinei com ambos os casais mas não se preocupem, arranjasse sempre forma de dormir! – Desculpou-se.

O outro casal era francês e também eles viajavam lentamente, ganhando calo no rabo…
Já estavam com 6 meses nos pedais e ainda lhes restavam outros 6. Tinham feito 140 quilómetros para chegar a Siem Reap… Coisa normal para eles… Ficaram admirados com os quilómetros que tínhamos, pois eles, com apenas 6 meses, não tinham os mesmos mas estavam no bom caminho.

Os músculos que ela trazia nas pernas, não eram obra desses meses a pedalar. É uma atleta em França. Corre na lama, na areia, na montanha… fazer 140 quilómetros num dia numa bicicleta, é coisa para meninos! Nem precisa de ouvir música para passar o tempo ou para ajudar a alegrar o caminho quando este está a ser monótono. 

Pois nós, gostamos de viajar bem lentamente e ficar nos sítios. Partilhámos a nossa viagem através de fotografias e fiquei com uma enorme vontade de conhecer a América do sul. Há muito que o desejo mas depois da pequena viagem por fotografias… “Vamos, vamos! A pedalar!”. A dureza do caminho apimentava a viagem e dava fotografias incríveis.

Sítio para dormir não foi complicado encontrar. O nosso anfitrião tinha uma casa com uma casa de banho, uma cozinha, e um quarto. Ficámos os 5 no quarto, e os dois casais no chão! Quando há vontade, uma casa nunca é pequena para receber pessoas!

Quem quer visitar os templos de Angkor, quem é, quem é? Estou a sentir muitos dedinhos no ar, muitos olhos a brilhar, muitos sorrisinhos! Um conselho: Vão! Vão e comprem um bilhete de 3 dias! (Paguem em dólares, porque se pagarem na moeda deles, fica mais caro… É o ÚNICO sítio com uma conversão de moeda diferente).

Vão sentir-se umas verdadeiras Tomb Raider, a explorar o espaço e a subir e descer pedregulhos. Vale a pena dizer que esta maravilha é realmente uma maravilha? Vale a pena dizer que vale a pena cada tostão que saiu da carteira? O que é que posso dizer que não saibam? O nascer do sol é qualquer coisa de mágico. Nós que nunca, repito, NUNCA nos levantamos para ver o nascer do sol, demos por nós a acordar às 5 da manhã e a pedalar 10 quilómetros para nos juntarmos às centenas de pessoas que já se encontravam no lugar. Qual sala de cinema qual quê!

 
Sim, Angkor é para ser visitado! Não vou escrever sobre o sítio. Ficamos à espera que nos digam vocês, como foi!

Em Siem Reap, descobrimos (não foi realmente uma descoberta) que é bom estarmos com uma pessoa da terra quando vamos aos restaurantes.

- Dou-lhes o preço para turistas ou não? – Perguntou a empregada ao nosso warmshowers em khmer, a rir-se e com “estragaste-me o negócio” no pensamento.

Claro que pagámos o mesmo que ele, pois ele não autorizou tal aldrabice. No dia seguinte, fomos tomar o pequeno-almoço ao mesmo sítio, pois sabíamos o verdadeiro preço. Pedimos o mesmo (não temos muita escolha) mas o preço do menu era bem diferente…

- Não queremos o menu porque está com os preços para turistas. Não somos turistas. – Dissemos, mas a mensagem, não foi bem entendida.

Ao pagar, sai da boca da empregada, um preço obeso…

- Estivemos cá ontem, sabemos o preço.

Ela riu-se e confirmou. Deu-nos o troco certo mas não ficamos por ali, pois não estávamos contentes…

- E ontem, o prato estava bem servido! Tinha ovo e fruta. Hoje, que estamos sozinhos, estava uma miséria…

Ela deu-nos razão e juntou outra nota ao troco.

Há coisas que não admitimos! Não admitimos que brinquem com a nossa tolerância. Não admitimos que nos digam que somos ricos porque somos brancos… O Rafael teve uma grande conversa com um guarda em Angkor, sobre esse assunto, porque ele atirou-nos à cara:

- Para vocês, isto não é nada, são ricos! - Quando explicámos que pagar em dólares ficava mais barato mas que não tínhamos connosco, por isso teríamos de voltar no dia seguinte.

O Rafael transpirou ao tentar explicar mas aposto que não percebeu! Mas claro que não percebeu! Se uma pessoa viaja, é rica, se viaja de avião, ainda mais rica é! Não vale a pena explicar que viajamos de bicicleta, que dormimos em tendas e cozinhamos, porque ele não ia perceber. Continuava com o seu sorriso nervoso e a dizer OK, OK.

Chateiam-nos com esses pensamentos mas também ficámos chateados com duas atitudes de turistas, que presenciamos. Ficámos doentes e estamos arrependidos de não termos aberto a boca.

Estávamos a almoçar em Ankgor, e numa mesa perto da nossa, estava um casal com os seus 40 e muitos. Havia uma criança a tentar vender-lhes recordações. A criança insistia e o casal não queria nada. A criança insistia e insistia. Ela sabe o que tem de fazer, sabe como funciona o dito turista.

- Se te der 1 dólar, vais embora? – Perguntou o senhor à criança que gesticulou afirmativamente.

Mas como é que é possível? Podem estar a pensar, mas 1 dólar não é nada… É sim! É!!! E é por causa desses dólares que os pais continuam a empurrar os filhos para as pernas dos turistas, por ser mais fácil terem pena, mas esquece-se o turista que se continuar a “alimentar” este acto, a criança nunca irá para a escola, já que os pais têm mais lucro com ele na rua e vai começar a ver todo o turista de igual forma – em forma de dólar, o que também é errado, pois um turista suíço com 60 anos na reforma, tem muito, mas muito mais dinheiro do que um estudante espanhol. Na nossa cabeça, faz todo o sentido, não na deles.

- Olha que criança tão linda. Oh que riquinha, toma lá um dólar.

Outra cena terrorífica foi ver um grupo de turistas coreanos, que estavam a ser devorados por crianças, um homem a abrir a carteira e a oferecer notas de 1 dólar a cada criança, que desapareciam com um grande sorriso de vitória.

O mundo está doido ou quê? “Nos outros países, eles devem ter dólareira, nós temos bananeiras, mas deve ser bem mais melhor bom ter dólareiras!” Deve ser o pensamento dos miúdos daqui.

Reclamamos muito, mas temos de reclamar para perceberem que há diferentes tipos de turistas. Por causas desses turistas inconscientes é que viajar ser torna cansativo, para viajantes como nós que todos os dias apontamos o dinheiro que gastamos, fazemos a média ao fim do mês, a média por país… Não pensamos em euros, pensamos na moeda do país. Se uma garrafa de água de meio litro custa 500 Riel, porque é que eles pedem 1000? É apenas mais 10 cêntimos mas como disse, não pensamos em Euros, pensamos que é o dobro! É muito! Com 1000 Riel, compramos duas! Não queiram imaginar as vezes que lutámos por causa de água, que para nós é das coisas mais importantes e que bebemos litros e litros por dia! Ah… Faz falta um filtro de água. 

Por favor! Não sejam mãos largas nas vossas férias. Não é assim que os ajudamos a enriquecer. Se fizermos todos o mesmo, aos poucos eles vão perceber que o turista não é burro.

Saímos de Siem Reap no mesmo dia que os franceses, mas fomos em diferentes direcções. Nós continuávamos para sul, em direcção a Phnom Phen - a capital. Pedalámos com muito calor, para não variar muito e continuávamos a ter o vento de frente. Desde que entrámos no Camboja, tem sido a mesma conversa: o vento chateado connosco, e não fazemos a mínima ideia do porquê! Juro que nada fizemos! Mas ele insistia na discussão.

Nesse dia, não encontrámos nada para almoçar. Não é fácil por aqui… Na Tailândia era bem mais fácil e percebiam-nos bem melhor. Aqui, são um pouco chineses, não são bons em mímica…

Vimos à entrada de uma casa uma senhora a cozinhar uma coisa estranha… Eles perceberam que não comíamos carne nem peixe, e nós conseguimos perceber que aquelas bolinhas eram feitas de arroz, e o molho, de alho.


Agradou-nos essa pequena descoberta e agradou-nos a pergunta que o senhor mais velho nos fez. “Claro que queremos um banho!” O senhor foi com o Rafael e abriu-lhe a torneira. Foi buscar o champô mas já era de mais… O que queríamos não era cheirar bem, mas sim, refrescar-nos! Claro que fui para a fila e voltei para o meu pratinho de comida, toda encharcada! Que bem que soube!

Adeus, adeus e já estávamos a fazer má cara com a teimosia do vento. No sentido contrário, íamos conhecendo vários cicloturistas. Todos eles reformados! (É preciso chegar a reformado para termos o vento pelas costas? Posso dizer que é injusto? Posso queixar-me?) Voltamos a encontrar um alemão que conhecemos no Paquistão. “O mundo é mesmo pequeno”.

 
O caminho continuava bonito, com as casa em madeira, com as crianças e adultos a gritarem Hello, com o Rafael a somar mais furos…

 
Quando chegámos a Kampong Thum, detestámos! Não tem nada para ver e os preços são ridiculamente caros! Mais caro que em Siem Reap que é super hiper turístico. Não entendo porque é que nesta cidade sem nada, os preços são de fugir! Sim, fugimos! No dia seguinte fugimos para não ganharmos cabelos brancos nem rugas de tanto franzir as sobrancelhas.
Partimos para o nosso pior dia… “Olha para o casal francês…cortaram caminho. Podemos fazer o mesmo e passar para o outro lado do lago!” Partimos, procurando apimentar a nossa viagem, colori-la, procurando fotografias mais animadas… Partimos com pouca água, “encontramos pelo caminho” Partimos com pouca comida, “encontramos pelo caminho, há sempre barraquinhas.”. Partimos para o pior dia da viagem! Ainda me dói falar nele… Ainda me dói pensar nele… Fica para um próximo post… Pedimos desculpas mas não estamos preparados.

3 comentários:

Carla Mota disse...

Concordo plenamente com a vossa opinião. São os turistas que alimentarem a ideia de que os "ocidentais" são ricos e que dão dinheiro porque têm muito. É por causa destes turistas que os preços são inflaxionados e muito pior: as pessoas não vêem pessoas quando olham para nós mas vêem dólares com pernas. Eu no Cambodja senti pouco isso. Onde senti mais foi no Vietname e por isso, ao contrário da maioria das pessoas, o país desiludiu-me. Tirando o Delta do Mekong, nós somos "dólares" e dinheiro fácil. Infelizmente é o próprio turista a destruir o turismo. E mais uma vez concordo inteiramente convosco; se estamos noutro país temos que fazer contas na moeda local porque estamos noutra realidade económica. Se pagarmos preço para turista eestamos a criar desigualdades sociais entre as pessoas que vivem do turismo e o resto da população local. Comparar com o nosso país deve ser meramente indicativo porque o valor das coisas devem ser comparadas com os preços dos produtos locais. Compete-nos a nós (que viajamos com poucos recursos económicos) fazer ver às pessoas que o dinheiro custa muito ganhar à maioria das pessoas e nem todos somos suiços, americanos ou alemãos. Vai demorar muito tempo mas um dia eles irão perceber. Isto eu acho que é turismo sutentável e responsável.

miguelrr disse...

A viagem à América do Sul é a minha viagem de sonho, por isso já sabem, nessa tb eu quero ir!
Abraços e beijinhos

Pipa disse...

Também não posso deixar de dizer que concordo com o que escreveram. Mas não é preciso ir muito longe: quando estive em Roma, no verão passado, numa das lojinhas de rua, perto do Coliseu, um vendedor, suponho que de outra nacionalidade sem ser italiano, apercebeu-se que éramos portuguesas e comentou: "português pode, português tem dinheiro". Em relação às crianças.. É terrível ver que essa realidade persiste em muitos sítios ainda, mas concordo que pior do que ter pais que os obriguem a tal atrocidade são os turistas com quem têm a (in)felicidade de se encontrar.

Beijocas*
Fico à espera do próximo post, estou curiooooosa :D

Pipa

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