O Mekong

Não há que enganar: seguir o Mekong - o grande Mekong - até chegar ao Laos! Deixámos o alcatrão e passámos a pedalar em terra batida, bem perto dos locais e bem perto do rio. As nossas novas camisolas deixaram de ser brancas para ganharem uma cor suja, de terra vermelha. Mas quem é que manda fazer camisolas brancas? Mas mais burro é quem as compra…

O caminho nem sempre era agradável para os nossos rabos, braços, pescoços e costas mas os hellos dos locais, saravam qualquer mal. Isso resultava nos primeiros 300 hellos… A partir daí, apenas o braço cumprimenta, primeiro o direito, depois o esquerdo, depois os hellos, começam a tornar-se insuportáveis! Passámos a fazer uma selecção e para mim, os primeiros que risco da minha lista, são as crianças que gritam como loucas, desesperadamente e repetitivamente, com vozes estridentes! Não há paciência e muitas vezes nem sabemos onde estão… Gritam quando ainda estamos longe e só param quando nos perdem de vista…

Tirando os gritos estridentes, gostamos das crianças do Camboja! A liberdade que têm, o ar selvagem. Têm qualquer coisa de índio e gostamos disso!



No dia em que saímos de Phnom Penh, parámos aos 30 quilómetros para ganharmos energia com um sumo de cana-de-açúcar. Perguntámos o preço (pergunta-se sempre, mesmo sabendo à partida, o valor) e antes de pedir, o Rafael vira-se para mim com cara de aflito e diz-me que não sabe da carteira. Bonito! Revirou os sacos todos e começámos a ficar preocupados, muito preocupados. Nisto, a rapariga dos sumos, apareceu com dois sacos cheios de bomba calórica. Tentei explicar-lhe que não podíamos aceitar, porque não tínhamos dinheiro mas ela insistiu em oferecer-nos as bebidas. Não estávamos à espera deste gesto e confesso que fiquei com um pequeno nó na garganta.

O mistério da carteira perdida continuava a azucrinar-nos a cabeça. Fui procurar melhor - não porque não confiei na busca do Rafael mas… Nunca se sabe - na bolsa da frente e… o que foi que encontrei? Uma carteira! Viva! Estava no sítio onde sempre está. Pagámos e retomámos caminho, bem mais descansados. Compreendo porque é que o Rafael nunca quis seguir carreira de detective!

Com 79 quilómetros, parámos. Tínhamos encontrado o sítio perfeito para acampar. Uma pequena barraquinha, desabitada, mostrou-se disponível para nos receber. Estacionámos as nossas ricas meninas que se encontravam sujinhas de tanto terem brincado na terra, e descemos ao rio, para podermos tirar o falso moreno que tínhamos ganho.

O céu não se mostrava com boa cor e o vento apressava-se para chegar, não sabemos vindo de onde… Nem ele o sabia, pois não se decidia no sentido a tomar.

Ao contrário do vento, nós sabíamos muito bem o que tínhamos de fazer: Sair dali o mais depressa possível e abrigarmo-nos.


Voltámos para a barraquinha e uma senhora que andava na apanha da manga, fez-nos uns gestos que nos pareceram dizer: “não fiquem aí que vem uma grande tempestade. Vão nesta direcção que vão encontrar um sítio para passarem a noite”. Não sabemos se estávamos certos na tradução, mas queria acreditar que sim. Uns 10 metros mais à frente, um senhor esticou o braço e apontou para um pequeno centro de saúde. No seu interior, estava uma mulher que nos fazia sinal para entrarmos. Parecia que estava tudo combinado!

A chuva caia com força e nós estávamos bem contentes com este convite. A senhora preparou o nosso ninho, o Rafael preparou o jantar e eu brincava com o filho de senhora. Gosto de comunicar com crianças dos outros países. Não é preciso grande coisa. Basta imitar uns quantos animais, fazer umas caretas e uns sons estranhos, e não nos cansarmos de correr, levantá-las ao ar e usá-las como plasticina!

Partimos cedinho, com uma fotografia tipo passe, da filha mais velha da senhora. Agradecemos o carinho e colámos carinhosamente a fotografia no nosso caderninho de recordações. O miúdo ficou triste com a nossa partida e com a partida de todo o jardim zoológico que transporto nas cordas vocais. 

De novo à estrada poeirenta, que nos levava por entre pequenas aldeias, onde se notava uma forte comunidade muçulmana. Estes ficavam contentes ao ver a barba forte e abundante do Rafael e ficavam contentes ao verem que sabíamos como responder acertadamente ao cumprimento árabe.

- Muçulmanos? – Perguntavam-nos.

“Não somos, mas passamos uns meses valentes no meio deles.” Podíamos ter dado esta resposta, mas sabíamos, à partida, que de nada serviria… por muito boa que a mímica fosse, eles não chegariam lá. Então, sabendo que para eles é importante ter-se uma religião, respondíamos mesmo que não fosse totalmente verdade:

- Cristãos!

A Arábia Saudita anda a investir no Camboja… Estão a construir uma série de grandes mesquitas vistosas, aos pontapés, assim como grandes escolas, e a convencer as mulheres a cobrirem-se mais, se possível, ficando apenas com os olhinhos à mostra. Muitas estão a obedecer… Esta pequena minoria muçulmana é conhecida como Cham, e são influenciados pelos Islamismo da Malásia. Ainda vemos crianças com os cabelos soltos e livres, e as mulheres, andam com as roupas tradicionais do Camboja, deixando os braços à mostra. É tudo bem mais natural, mais livre, mas o dinheiro anda trabalhar bem por estes lados. Quem nos contou tudo isto, toda esta transformação que está a acontecer a esta minoria, foi o Padre Luca.

Parámos em Trea e andávamos à procura de um terreno perto do Mekong para montar a tenda. Desistimos do rio, quando vimos um portão com uma cruz e lá no fundo, uma igreja. Um rapaz apareceu e cambojano não era de certeza. Era o Luca, um padre italiano que vive há 5 anos no país. Tem a sua pequena comunidade – descendentes dos últimos escravos, daquela zona – e está muito contente com a sua missão.

- Por mim, ficava aqui a vida toda. – Dizia com um sorriso.

Não foi preciso montar a tenda! A casa que construiu para viver, tem um quarto para receber viajantes e quem quiser visitá-lo. Fica contente com a companhia e nós ficámos contentes com a hospitalidade.

No dia seguinte, assistimos à missa. Na igreja, deveria de estar umas 40 pessoas.

- Eles são mais, mas muitos foram para o campo trabalhar. – Explicou-se.

Homens de um lado, mulheres do outro… Os cambojanos assim preferem… Claro que nada percebemos do que foi falado na missa, mas gostámos de sentir o ambiente, de ver os sorrisos das pessoas, contentes por estarmos ali, no meio delas. Findada a missa, partimos com o padre, para Kracheh, embora este fosse numa motorizada.    

- Tenho de dar mais duas missas hoje. Vou substituir o padre equatoriano. Podemo-nos encontrar em Kracheh.

Depois de 85 longos quilómetros - pois pensávamos que seriam bem menos - chegávamos! Encontrámos uma pequena Guest House e no momento que estávamos a procura do telemóvel para entrar em contacto com o nosso novo amigo, o telemóvel toca. Era ele, pronto para nos ir buscar, para jantarmos juntos. E lá fomos nós, os 3 na acelera! Em Roma, sê romano, sempre ouvi isso.

Ficámos um dia a descansar em Kracheh. Não fomos ver os famosos golfinhos, a principal atracção para os turistas, preferimos ficar por terra e descansar as pernas para a próxima dura e poeirenta etapa. Estávamos já perto da fronteira com o Laos, bem perto de dizer adeus ao Camboja. Não escolhemos a estrada principal, pois esta afastava-se muito do Mekong e ouvimos dizer que era uma verdadeira seca pedalar por lá, que o melhor seria mesmo apanhar um autocarro. Olhámos para o mapa e vimos que existia uma pequena estrada sempre ao longo do rio. Claro que sabíamos que seria uma estrada poeirenta, mas já estávamos habituados a esse bónus.


Não estávamos certos do corte para virar mas bastava estar perto do rio para estarmos bem. O mapa não engana. Este caminho era bastante estranho… Estaríamos bem? Havia partes bem queimadas, deixando uma paisagem triste e assustadora. Não queríamos voltar para trás, pois sabíamos que não estávamos mal. O rio continuava ao nosso lado esquerdo mas o caminho passou a ser um trilho que desapareceu quando chegámos à frente de uma casa. “Bonito!”


- Stroeng Treng? – Perguntámos à família que se encontrava ali perdida no meio do nada.
Sorriram e apontaram para outro trilho. Estávamos estranhamente bem… Agradecemos e continuámos caminho. Descemos muito, sendo obrigados a saltar das bicicletas fora. Passámos um rio seco e restava-nos subir. Os miúdos da casa apareceram e ajudaram-nos a empurrar as meninas.

- É muito estranho… As motorizadas não podem passar por aqui… - Comentava o Rafael.

“Pois não…” Pensava, já com o nariz torcido. Voltámos a descer e a passar rios secos, voltámos a ver a floresta a arder e a pedalar por trilhos estranhos, sem certezas. As horas iam passando e a nossa água ia desaparecendo. Já não sabíamos onde estávamos. Há muito que não avistávamos casas com pernas e começava a falar com os meus botões. “Isto, no fim de contas, é cortar caminho e eu tinha dito que nunca, mas nunca mais ia cortar caminho! Mas quem me mandou!!!”

Quando encontrámos casas, perguntámos por água e tivemos que pagar os preços injustos que nos propunham. Nada a fazer… Perguntámos pelo caminho e mandaram-nos cortar à direita para seguirmos pela estrada principal… Mas no mapa dizia que havia um pequeno caminho ao longo do rio… Não dará mesmo? Não sei, nem quero saber! O que sabíamos, era que o dia estava a terminar e boa luz é coisa que não temos…

Fomos meninos bem comportados e seguimos o caminho que nos foi indicado. Areia, caminho duro e desespero! Já bufava e o Rafael já ia longe.

- Nunca mais corto caminho, ouviste? – Gritava.

Já não tínhamos água e a estrada principal ainda estava longe mas mais uma vez o Santo 26, apareceu e transformou um monte de terra num pequeno acampamento com uma grande família. Estávamos salvos. Comprámos água e perguntámos os quilómetros para a estrada. “20 quilómetros?!” Era impossível pedalar com aquela escuridão! Nisto, uma senhora fez sinal para dormirmos ali. Aceitámos, contentes pelo primeiro convite, no sudeste asiático!  
    
Montámos a tenda com assistência e fomos tomar banho, ali mesmo, ao ar livre, com mais duas senhoras. Ainda não tinha a saia que elas usam, que serve de “vestido” para tapar o corpo na hora do banho. Não tendo, não tive outro remédio que me pôr em cuecas e soutien, provocando o riso de algumas mulheres e um sorriso nos olhos de alguns homens. O importante, era receber aquela água benta, pelo corpo, que o Santo 26 nos proporcionou!
Passámos a noite a ver dvd’s pirosos de músicas de baile dos casamentos, com as letras a passarem em rodapé e a comer arroz branco com… arroz branco.

Novo dia e nova estrada. Ficámos contentes com o alcatrão mas a estrada era uma seca das grandes. Preferimos a estrada poeirenta, quando esta nos leva direitinhos aos sítios. Chegámos a Stroeng Treng, com 94 quilómetros… Estávamos na nossa última terra no Camboja. No dia seguinte, estaríamos num novo país!

Esfregámos a roupa, comprámos comida, jantámos fora, bebemos um óptimo café frio que repetimos no dia seguinte. Estávamos rotos e por isso, sabíamos que iríamos dormir como anjinhos!

Novo dia: O dia da despedida! Foi fácil chegar à fronteira. Entregámos os passaportes e:

- 2 dólares cada um. – Dizia o guarda.

“2 dólares o caraças!” Pensava.

- Como? – Perguntei com um falso sorriso. - Desculpe, mas não é a primeira, nem a segunda vez que visitamos o vosso país. (pequena mentira não faz mal a ninguém) Sabemos que não é preciso pagar nada por isso, não vos vamos dar esses 2 dólares, ok?
- Ok. – Resposta correcta.

Pronto, sem problemas. Tarefa fácil sair do Camboja. Agora, só falta entrar no Laos… Como será? Hummmm…

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