Visto nos passaportes!
- Quanto é? – Perguntei.
- 25 dólares. – Respondeu o guarda.
- 25? Não são 20 dólares? – Perguntou a Rafael, achando
muito estranho o valor.
- Sim… 20 dólares. – Pensou melhor e falou verdade - desta
vez.
Querem ver que o sangue indiano corre-lhes nas veias? (desculpem-me…
não resisti…)
20 dólares pagos e fizemos os primeiros quilómetros no país,
desta vez, e finalmente, pelo lado direito! Não posso dizer que tenha sido
fácil voltar à normalidade… A suposta normalidade passou a ser estranha. Mudei
o espelho para o lado esquerdo e foi-me difícil educar os olhos para esse novo
lado. Foram 6 meses a pedalar pela esquerda…
Tentamos somar ao que já aprendemos, novidades importantes
para a nossa estadia no novo país: 1 dólar são 4000 Riel; Bom dia em Khmer é Sua s’dei (lê-se Susrai, ou pelo menos, eu percebo dessa
forma); Obrigada é aw kohn (lê-se Ócune). Tentámos aprender esses
novos dados, no primeiro dia para parecer que estamos já há pelo menos, uma
semana… Depois temos de nos habituar rapidamente às diferenças dos países. Se
pagamos em Riel, podemos vir a receber o troco em dólares e vice-versa, pois o
dólar é, também ele, oficial. No início ficávamos com cara de parvos a olhar o
troco e a pensar “deve ser para me enganar” mas não… o troco vem sempre sem
enganos.
- Acho que fui roubado… A senhora levou-me por uma garrafa
de meio litro, 500 Riel… - Disse o Rafael, depois de ter comprado água fresca,
pois o nosso corpo não tinha mais líquidos para poder transpirar… Os 45 graus
estavam a provocar uma morte lenta e sofrida… Welcome do Cambodja!
Não, não fomos roubados, mas a desconfiança é sempre maior.
Traumas da Índia.
As boas estradas da Tailândia desapareceram…
- Quando puderes corta à esquerda. A rua para cortarmos
caminho, deve ser essa. – Avisou-me o Rafael.
Cortei à esquerda e despedi-me do alcatrão. A terra batida
de cor vermelha dava-nos as boas vindas, assim como a paisagem que metia dó… O Camboja
está a arder e ninguém se importa. Tudo está nu, escuro, sem vida… É uma
limpeza total! Serão os chineses… Não podem ser…. Será? “Corta árvores, vende
madeira, queima terreno, e já podemos comprar terrenos baratos para alargar a
estrada e assim os nossos super camiões, com produtos super chineses, podem
passar!” Será? Foi o que os nossos ouvidos ouviram. Ou será para a venda da
lenha, ou para comprarem os terrenos mais baratos, não só os chineses ou… não
sabemos e não conseguimos obter uma resposta concreta.
Seguimos caminho com muito calor e com muitos Hello! Hello! vindos da esquerda, Hello!
vindos da direita e todos eles com grandes sorrisos. Estávamos rendidos!
- Hello! Hello! –
Dizíamos, levantado o braço como uma princesa deselegante.
Chegámos à cidade que tínhamos em mente como meta. Tínhamos
chegado a Anlong Veng, que pensava
ser uma cidade com peso e medida… No mapa, parecia ser alguma coisa…
Encontrámos um hotel e ficámos satisfeitos com a escolha. Por aqui, os hotéis
rodam os 5 dólares, a noite, com direito a garrafa de água, escova dos dentes,
champô, sabonete e o famoso pente usado por todos! Os quartos são limpos, fora
o pente, e com bom aspecto. Estamos satisfeitos com a qualidade! Bem mais
baratos que na Tailândia e com mais classe.
Depois do banho tomado, saímos à rua. Estávamos cheios de
fome! Tudo nos parecia caro, mais caro que em Portugal… (Do Portugal que
deixamos há um ano e meio). Fomos para o mercado e decidimos arriscar a nossa
sorte numa das barracas. Não foi fácil... Apontávamos para tudo o que podíamos
comer e sorríamos dizendo um grande YES,
GOOD. Apontávamos para a carne e dizíamos um grande NO, NO EAT. E da parte dela, vinha um grande OK OK com um grande
sorriso. O próximo passo é saber quanto é que nos vai levar… Transpirámos assim
como ela, mas ela mantinha o seu grande sorriso. Não podíamos desistir pois
queríamos muito comer e ali, era a nossa última hipótese. Passados uns bons
minutos, ela percebeu que, dizendo o valor em khmer, não ia a lado nenhum pois ela também não percebeu quando lhe
falamos em português (nem inglês percebia, ia lá agora perceber português).
Percebeu que tendo a mão em punho e levantado o indicador, poderíamos contar -
um - e se encarrilar a palavra - dólar - estaria o problema resolvido.
- 1 dólar? – Gostamos de confirmar os valores mais que duas
vezes.
Afirmativo. Ufa… Sentámo-nos finalmente. O prato apareceu
assim como uma pequena malga com um sopinha. Estávamos admirados com a enorme
quantidade de arroz com legumes que tinhamos no prato.
- Isto é espectacular! Ou melhor, seria espectacular se não
viesse com carne. – Disse olhando para os enormes pedações.
Andámos tipo detective a revirar o arroz para separar a
carne, pois não valia a pena reclamar. Já não sabia quais os gestos necessários
para mimar o nosso descontentamento.
Gostamos de provar as novidades! Os sumos de manga são
deliciosos, as bananas fritas são hilariantes, os sumos de cana-de-açúcar são
calóricos? Não faz mal! Fazemos muitos quilómetros e pronto, ficamos bem!
Depois há sumos mais estranhos, com estranhas gomas, muito gelo, um xarope de
fruta e claro, leite condensado!
Pedalámos ouvindo todo o santo dia, os hellos! que saiam das bocas de todas as idades. As crianças fazem o
nosso coraçãozinho derreter-se aos poucos… Um bracinho esticado, um sorriso
contagiante e um hello! doce e
repetido… O que se quer mais?
Começámos a avistar turistas, quando nos aproximávamos de Siem Reap. Uma das 7 maravilhas do mundo estava preste a conhecer os maravilhosos 2numundo!
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