e vai para a direita, e vai para a esquerda e direita e esquerda...

Nunca gostei de viajar fechada num carro. O meu pai chateava-se comigo por nunca ficar atenta à paisagem. Fechava os olhos e esperava chegar depressa ao destino. “Ainda falta muito?” Usei esta frase até muito tarde. Se não adormecia, ficava mal disposta e se não ficava mal disposta, era porque estava a dormir. Nada via através do vidro, nada me interessava, como um animal dentro de uma jaula…

Fomos para Luang Prabang numa carrinha, com mais 6 pessoas. Dois Laocianos, um alemão, três franceses e nós, os tugas.

Quem construiu esta estrada, sonhava ser um patinador artístico profissional. E vai para a direita, e vai para a esquerda, e vai para a direita e desliza para a esquerda e assim sucessivamente sem nunca ficar com os pés paralelos e seguir em frente, não, isso nunca! O que ele gostava era daquele deslizar – vai para a direita, vai para a esquerda. Resultado: Uma estrada com 300 quilómetros, sem uma recta que tivesse mais de 100 metros!

Quando comecei a perceber onde nos estávamos a meter, sentei-me direitinha e fiquei caladinha. “Respira fundo, Tanya.” Os pneus chiavam a cada curva e por duas vezes, vimos o corpo da rapariga francesa, a sair do lugar, acabando por cair na pessoa ao lado, neste caso, do alemão. Os pneus continuavam a chiar e as curvas multiplicavam-se, triplicavam-se, nunca mais paravam. Já transpirava, a saliva chegava à boca com um sabor diferente, tinha que me concentrar nos pensamentos, olhar em frente e segurar-me à porta, como quem segura a sua vida.

- Estás bem? – Perguntou-me o Rafael.

- Nem por isso. Não posso falar.

A senhora francesa suspirava, queixava-se, transpirava, borrifava água para a cara. A viagem não podia terminar bem… Estávamos à menos de duas horas na carrinha e três pessoas já estavam brancas, amarelas e creio que vi uns tons de azul. A terceira pessoa era a laociana, não tirava a mão da boca, mantendo assim o pequeno-almoço, sem o desperdiçar.

- Ele tem de parar, estou muito mal disposta. – Disse para o Rafael que avisou o motorista, que parou imediatamente.

Ufa, ar fresco. A rapariga francesa, fumava, o alemão tirava fotografias à equipa, a senhora francesa respirava fundo e levava as mãos ao peito, eu caminhava de um lado para o outro, a laociana vomitava, o Rafael esperava, o laociano mudava a fralda ao bebé, o senhor francês dizia que leu num guia turístico, que 80% das pessoas que fazem esta viagem, ficam com má disposição. Claro que eu teria de entrar nas estatísticas!

Não podia continuar assim… Não gosto, mas não tive outra escolha.
Fui à casa de banho e o meu dedo teve uma curta conversa com a minha úvula - que nome feio… Vou reformular a frase: Fui à casa de banho e o meu dedo foi à minha boca, tocar à campainha. Saí de lá como nova!

Ufa, já conseguia respirar e sorrir. A senhora francesa disse que não era capaz de tal proeza com os dedos.

Entrámos para mais umas belas horas na carrinha e eu já conseguia olhar em redor. Mantinha-me calminha para não jogar na segunda parte, mas estava contente com o meu bom estado.

Era impossível dormir com tantas curvas… Creio que ganhei músculos no braço esquerdo, com a força que fazia para me segurar. Não era possível adormecer mas os olhos estavam pesados e deixei-os relaxar. Fui obrigada a abri-los e a avisar o condutor para pôr o pé no travam quando o Rafael me disse, com má cara:

- Temos de parar rapidamente! Estou super mal disposto.

O Rafael com má disposição?! Estamos juntos há 6 anos e nunca o vi a enjoar num carro, nem num autocarro, nem num comboio, nem a correr! Dizem que há sempre uma primeira vez e fiquei feliz por saber que ele é humano!

- Agora já compreendes as minhas más disposições? – Perguntei orgulhosa do meu menino ter sentido algo de novo na sua vida.

- Comecei a sentir a saliva a acumular-se de forma estranha na boca. “Estou mal disposto.” Pensei. - Diz o Rafael, admirado com o seu estado.

Depois de ter deixado para traz o leite de soja, o café, e os bolinhos fritos, voltámos todos para a carrinha. A senhora francesa e a laociana continuavam um pouco brancas, amarelas e não sei se era azuis ou verdes…

Nova paragem, mas desta vez, foi para almoçar. O casal francês preferiu não arriscar e ficaram-se pelo chazinho. O casal laociano, comeram afastados de nós e o resto da trupe, comeram uma bela sande com maionese! Quando é para comer, é para comer e logo se vê o que acontece…

No problem! O resto da viagem correu às mil maravilhas, sempre com o grande exercício em mantermo-nos no nosso lugar. Chegar, foi um alívio! Sair daquela carrinha, foi o melhor momento do dia!

Mas uma coisa é certa: teremos de regressar a Phonsavanh… Mais cedo ou mais tarde…

2 comentários:

PauloSilva disse...

Fiz uma viagem igualmente estafante à dois dias. Vim de Portugal para a Alemanha num carro mais cheio que um saco de caracóis comprado!

São experiências que... chateiam.

Mas eu sou o oposto: adoro ver as vistas, os animais por ai, as pessoas, os outros carros.

Ficar enjoado é raro...

Enfim, ainda bem que correu tudo bem (:

Sônia Herminio disse...

Olá bom dia! abri seu blog e gostei muito pois adoro viagens. Lhe convido a visitar meus blogs um deles é de viagem, quem sabe gosta e passa a me seguir. Estou aguardando, abraço, Sônia

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