Pedalar Devagar - Globonautas


Depois de uma longa ausência na secção PedalarDevagar, voltamos com dois cicloturistas portugueses por quem temos uma enormeadmiração…e uma imensa inveja, admitimos!

Conhecemos o Nuno Pedrosa, ainda que nãopessoalmente, na viagem que fez de norte a sul do continente americano e desdeaí seguimos-lhe os pedais! Mais tarde reparámos que a Joana Oliveira juntava-separa umas pedaladas em conjunto. A viagem começou em Julho de 2006 e terminouem Março de 2009 e foi intitulada “Umaviagem pela estrada Panamericana(clicar para aceder ao site)

Agora, uns anitos mais tarde, partem para outraloooonga viagem de invejar a qualquer um: regressar a casa, Portugal, desde aNova Zelândia!

Deixamos aqui um agradecimento aos dois e umdesejo de uma espectacular aventura! Será, sem dúvida!


Nome, idade, de onde ése profissão?

N - Nuno Brilhante Pedrosa, 40, Leiria. Viajante!

J - Joana, 33 anos, de Leiria. Actualmente desempregada,a ciclovagabundear o mundo!

Qual a primeira viagem de bicicleta que fizestee o porquê da escolha?

N - A primeira viagem foi uma tentativa falhadade fazer o que vocês estão a fazer: Ligar Portugal a Macau, com a intenção delá chegar antes da entrega do território aos chinocas. Mas saí de Leiria sem amínima noção das distâncias e 8 meses e 12000 quilómetros depois, teso que nemum carapau, encalhei nas pirâmides do Egipto e daí, regressei a Portugal.

J - Da Marinha Grande à Praia Velha em São Pedro,tinha uns 12 anitos. Fui com um grupo de amigos e o meu irmão ás escondidas dosnossos pais, passar a tarde à praia, cerca de 20 quilómetros para cada lado, umpercurso com muito pinhal e areia. Estávamos aborrecidos e gostávamos de andarde bicicleta a explorar território novo. Mudam pouco as coisas. Apercebo-meagora que mesmo em paragens mais distantes continuo a viajar pelas mesmasrazões: por me aborrecer com a rotina e por querer conhecer sítios novos.Depois, onde fiquei realmente viciada no cicloturismo propriamente dito, foinumas férias no México em 2006 onde me juntei ao Nuno por quinze dias apedalar.

Como fazes quando queres viajar, em relação atrabalho e claro, a dinheiro?

N - Quando julgo ter juntado dinheiro suficientepara um projecto, despeço-me do trabalho e faço-me à estrada. Quando regresso,procuro outro. Simples! Como sabem tão bem como eu, quando se viaja em low cost, o dinheiro estende… semanastransformam-se em meses e meses em anos.

J - Nos últimos 10 anos, as viagens têm sido maisou menos o objectivo principal, por isso trabalho a tempo inteiro por umastemporadas e quando tenho umas poupanças, que apesar de nunca serem asidealizadas, são as suficientes, agarro na bicicleta, no namorado e damos asasàs viagens com que sonhámos durante o tempo que não andamos a viajar e muitasvezes nas viagens que vamos imaginando, quando ainda andamos em viagem.


Qual para ti o sentido de viageme o que buscas quando partes?

N - A grande motivação para viajar é umreflexo da grande ambição da minha vida em explorar novos lugares, de fazercontactos enriquecedores com outros povos e culturas, de testar os limites daminha determinação. Viajar de bicicleta é a forma mais ecológica de transporteque te permite a possibilidade de viajar em silêncio e sem uma janela aseparar-te do país que atravessas, usando a tua própria força natural,permitindo a todos os sentidos fazerem parte da experiência.

J - Sobretudo um sentimento muito forte de querersentir o mundo na primeira pessoa. De me desprender de certos hábitos deconsumo e confortos que me fazem preguiçosa. Por ter sede de conhecimento, deme querer melhorar como ser humano, de conhecer outras realidades, outraspessoas e por sentir que o mundo está a mudar depressa de mais, sobretudo noaspeto natural e querer ver o que ainda resta.

Porquê a bicicleta?

N – Barato, mas também a liberdade que ela te dá.Em nenhum outro meio de transporte os sentidos estão tão alertas como com abicicleta! Podes sentir, cheirar, tocar a paisagem a qualquer momento. De carro,tudo o que vês através do vidro, não passa de “mais televisão”!

J - Porque é um meio de transporte que me permiteir ao meu ritmo, onde eu quero ir, com quem eu quero ir. É também uma formabastante mais económica de viajar e que me permite um contacto muito maispróximo com as pessoas que vou conhecendo pelo caminho e com as paisagens poronde vou passando.

Um episódio curto de viagem que destaques.

N - Dois, quase consecutivos: a aterragem de um helicóptero da Discovery Channelno meu acampamento no meio da selva no Panamá, que partiu a tenda e a fez voarpelo ar. Levei umas horas com uma catana a cortar mato para a ir buscar erecolher o meu equipamento. Dias depois estava numa minúscula embarcação decontrabandistas colombianos a caminho da Colômbia. Depois de 11 horas deviagem, duas tempestades e uma fuga à polícia, atracamos numa praia desertaalgures na costa colombiana. Sem dinheiro, água, comida e a mínima ideia deonde estava, entrava no país ilegalmente.


J - Tantos, mas sobretudo no aspecto humano, aquantidade de vezes que fomos acolhidos na estrada por estranhos que, semesperar nada em troca, nos deram de comer, abrigo e amizade. Ou dos outroscicloturistas que fomos conhecendo durante as nossas viagens. Por exemplo,quando atravessávamos o Salar de Uyuni, 195 kms de puro branco, uma paisagemúnica e surreal e começámos a ver um ponto preto que deduzimos ser um outrocicloturista, o que dada a imensidão e o facto de não haverem estradas, torna oencontro pouco provável. De facto era e o que estava para ser um encontrocasual no início de uma tarde, transformou-se numa bela tertúlia sobre viagense a vida! Acabámos por partilhar o jantar e o acampamento sob uma noite fria epartimos em direcções opostas na manhã seguinte com pena de não podermospartilhar pedaladas juntos.

O país no qual mais gostastede pedalar até hoje e porquê?

N - Hum, difícil escolher. Cuba e Colombia pelaspessoas e Bolivia pela aventura.

J - A Bolívia, embora tendo em conta que passeimuito do tempo fora da bicicleta a empurrá-la por estradas arenosas ou porestradas que de estrada, só tinham o nome. Mas a Bolívia é um país compaisagens fenomenais, impossíveis de descrever e comparar e o sentimento deisolamento e de pequenez é tão grande que de facto te fazem compreender adimensão que temos (ou que não temos) no meio daquilo tudo. Foi um país que metestou em todos os sentidos, mas ao qual regressaria sem pensar duas vezes.

O pior momento da viagem.

N - Sem dúvida, a travessia para a Colômbia. Jureique se sobrevivesse, nunca mais iria me queixar das subidas.

J - Quando ela termina.

O que levas na tua bagagem queaches indispensável?

N - Uma rede para dormir umas sestas à tarde, àbeira da estrada.

J - O Nuno ofereceu-me um colchão Thermarest que é um pouco mais grosso doque o que tinha anteriormente e vale o peso a mais e o espaço que ocupa. Dormirbem depois de um dia cansativo de ciclismo, mesmo que se acampe sobre pedras,não tem preço. Depois, a minha máquina fotográfica e o meu selim brooks. E um bom livro.

Quando regressas, o que mais te custa?

N - Procurar trabalho e habituar-me aos horárioscertinhos da vida mundana. O pior dia de cicloturismo é melhor do que o melhordia no escritório, certo?

J - Reabituar-me à rotina e perder o controlo sobrea forma como giro o meu tempo e faço as coisas que realmente gosto. Quando viajo,eu é que marco o ritmo: a que horas acordo, quando começo a pedalar, para ondevou, quando vou, com quem vou… na realidade laboral tenho o ritmo marcado pordespertadores, horários de comboios, de compromissos de trabalho, aturar genteque nem sempre me apetece aturar, etecetera.

Próximo destino: onde e quando?

N - Estou de momento na Nova Zelândia a caminhode Portugal. Ainda tenho pela frente mais 30 países e mais de 40000 quilómetros.

J - África, com um pouco de sorte (e dinheiro) numdesvio ao percurso da viagem que estamos a fazer de momento: o regresso a casa,dos antípodas!

Consideras-te um viciado em viagens ou umapessoa que tem prazer em viajar?

N - Ambos!

J - As duas coisas.

Que tipo de viajante és?

N - Hum….

J - Não sei. Que tipos é que existem?!


Qual a sensação de ser mulher viajando por essemundo fora de bicicleta? Reacções, como te olham, o que mais te custa?
J - Alguns elementos do sexo masculino podem ser umpouco desagradáveis (para pôr a coisa de uma forma simpática). Tive algumasexperiências menos engraçadas na América do Sul, sobretudo no Peru, mas defacto em comparação com as reacções positivas nada de relevante para me deterde continuar a pedalar. De facto cada vez existem mais mulheres a fazer cicloturismoe a rapaziada já se vai habituando e, na realidade, quando pedalas sozinha, aspessoas de uma forma geral ficam mais curiosas e ajudam-te mais, a interacção édiferente do que quando estás a viajar com o teu companheiro.

O que me custa mais são as subidas íngremes, ovento de frente e não poder levar mais roupa e livros nos meus alforges. Comomulher, sinto-me privilegiada por ter adoptado esta forma de transporte que mepermite fazer o que mais gosto – viajar!

Podem acompanhar mais da viagem que o Nuno e a Joana estão a fazer em: www.globonautas.net

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