E assim terminamos...

Depois de 19 meses e 24 horas por dia juntos, estamos separados pelo trabalho. Não é que não estejamos habituados a trabalhar em cidades diferentes mas depois destas nossas viagens, hei-nos cada vez mais difícil ter de nos despedir, para um de nós partir… Resta-me recordar a viagem, olhando para as fotografias, vendo vídeos, suspirar de saudades e finalmente, escrever o último post. É uma sensação estranha esta… “escrever o último post”…  Há sempre um sentimento estranho quando se termina. Andamos distraídos no trabalho, fazemos praia quando o tempo assim o permite, e pensamos no futuro, pouco tempo temos para recordar esta nossa odisseia... Em Setembro, volto para o teatro e não me podia sentir mais feliz com este convite do Teatro Regional da Serra do Montemuro! O Rafael está em Guimarães a trabalhar num projecto para a Capital Europeia de Cultura.


Os nossos últimos dias na China, foram uma corrida contra o tempo! Marcámos uma data de chegada e não queríamos fugir a essa data! 2 de Maio. Tinha que ser nesse dia, não antes, nem depois: 2 de Maio! Porquê? Não há explicação! Tivemos a sorte de apanhar as tais duas boleias que nos ajudaram a atravessar aquelas duas longas pontes. Anjos que nos apareceram e nos livraram de somar quilómetros. Conhecemos raparigas que nos fotografavam nos restaurantes e que esperavam que saíssemos para poderem dar dois dedos de conversa, pois nunca tinha falado com estrangeiros… Perdemos horas à procura de hotéis que nos acolhessem, pois nem todos são autorizados a turistas. Tudo o que poderia ser extraordinário, surpreendente, diferente numa viagem destas, não estávamos a conseguir sentir, pois só queriamos chegar rápido e tudo já era igual a tudo. Depressa nos habituámos ao estranho.

Só pensávamos no regresso a Portugal. Estávamos tão focados nisso que nos esquecemos que a verdadeira chegada seria em Macau. A viagem termina lá, o destino é Macau!

- Ninguém vai estar à nossa espera… - O Rafael foi quem se lembrou desse pormenor.

- Pois, eu só estou a pensar em Portugal. – Dizia muito triste.


Não íamos ter família, amigos para abraçar mas não podíamos deixar que isso nos afectasse! Íamos chegar! Só tínhamos que nos sentir vitoriosos e festejar com quem nos aturou durante esta viagem, com quem nos abraçou quando chorámos, com quem discutimos, com quem partilhamos o que vimos, o que sentimos, com quem ajudou a puxar a bicicleta em grandes e monstruosas subidas. Era com essa pessoa que fazia todo o sentido terminar a viagem e dar os parabéns! Essa pessoa éramos nós. Nós que nos apoiámos, que rimos, que chorámos, que houve momentos que não nos podíamos ver um ao outro, mas éramos nós que nos encorajávamos e que nos amávamos!

Macau estava ali. Um rapaz que nos acompanhou durante 15 quilómetros esticou o braço e o indicador e disse:

- Macau!


Macau?! Macau à vista!!! Que enorme emoção! Abraço atrás de abraço! Só nos restava apanhar o barco e pedalar os últimos metros ou quilómetros até chegar à Praça do Senado. Não queríamos acreditar que tínhamos chegado! Voltámos a pedalar na faixa da esquerda, pelo caminho indicado por uns franceses. “ Vou gostar disto” lembro-me de ter pensado, ainda no meio do trânsito.


- Não faço a mínima ideia se estamos bem ou não… - Dizia o Rafael com a câmara na mão, para registar a nossa chegada.

 Vimos uma praça ao nosso lado esquerdo e o Rafael disse para virar lá. Não era preciso ter dito aquilo pois a calçada portuguesa estava ali a convidar-nos para as últimas pedaladas! Estávamos na meta final, já sentíamos a nossa vitória e sentiamo-nos feliz! O Rafael continuava na sua gravação e dizia:

- Pois, chegámos e não está aqui ninguém para nos receber.

- Está sim. Olha ali. – Respondi-lhe, vendo um pequeno grupo de 5 ou 6 jornalistas portugueses que estão a trabalhar no outro lado do mundo.

A emoção era muita, os nossos abraços eram fortes! Passados 19 meses, 17520 quilómetros, tínhamos chegado!


Fomos entrevistados, saímos nos diferentes jornais de Macau, fomos convidados para um programa de televisão, num canal português. Fomos reconhecidos na rua por uma senhora que nos deu os parabéns… Estava tudo a ser tão estranho… mas tão bom.


Ficámos hospedados na Fundação Oriente e não podíamos ter terminado melhor! Tivemos o conforto merecido, tivemos um cheirinho a Portugal e só isso nos deixava em paz. Macau foi o destino perfeito para esta viagem.

Conseguimos e estamos felizes com o nosso percurso e felizes por continuarmos com a nossa grande amizade e pensar em projectos futuros. Agradecemos a todos os que nos acompanharam, a todos os que nos escreveram a dar forças. Viajar é partilhar e ficamos felizes por ter partilhado convosco esta nossa/vossa viagem! Obrigada a todos e obrigada Rafael, por seres uma pessoa tão especial para mim. Sem ti, não teria chegado onde cheguei, não seria quem me tornei e só a ti tenho de agradecer! 



Levaste-me a ver o mundo e o mundo é lindo ao teu lado! (estúpida, fizeste-me chorar...isto não se faz...depois dou-te muito beijinhos bons...e um triciclo!)

Obrigada! Obrigado!

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