4 dias a cãominhar!

Sujeito-me a levar uma "carga de porrada" mas continuo a afirmar aquilo que sempre pensei: O povo português não é hospitaleiro, é simpático, que é totalmente diferente. Ok, hospitaleiro é, é verdade, para quem tem dinheiro para gastar, para quem conhece ou para conhecidos de conhecidos, caso contrário, é só simpático!

E isto não é nenhum mal. Pensemos que os há menos hospitaleiros que nós e ficamos mais felizes!



Cheguei a Campo Benfeito, a uns meros cem quilómetros de Ovar, montanha acima, onde nos propusemos - eu e o T - chegar a pé! Nunca havia feito tal coisa e como em todas as coisas que me proponho fazer, só no dia que começo é que acredito que vou chegar ao fim! Até lá, mesmo na noite anterior, faço tudo muito devagar, por esquecer-me de algumas coisas até, porque ainda não sou capaz de me imaginar a fazê-las! Foi assim na pedalada até Istambul e depois até Macau com a Tanya!

Quando olhei para o mapa, marquei quatro pontos: Ossela, Arouca, Meã e Campo Benfeito! Seriam estas as nossas paragens ao longo do percurso! Trolley preparado, queijo, pão e marmelada, barritas de cereais com chocolate e água! Comida embalada para o T e ossos para lavar os dentes! As bolachas de chocolate ficaram esquecidas no congelador, lá está, assim como o chocolate Pantagruel de culinária que a minha mãe me havia oferecido e acaba em Setembro.

Pés ao caminho!

Os quatro dias que se seguiram foram magníficos! Não que estivesse a ver alguma coisa pela primeira vez, pois já havia feito o mesmo trajecto - quase - de bicicleta, mas porque o nosso comportamento quando sozinhos, é diferente. A nossa abertura para o tempo ou o passar dele, o que temos de inventar para alegrar as horas de maior tédio, as paisagens que se apreciam doutra forma, as estradas que se olham com mais subidas e descidas, as dores no corpo, o procurar de um espaço para dormir, a água que falta e que só vemos a passar no rio inalcançável, lá em baixo, as pessoas que nos olham e de nós desconfiam, os barulhos que vêm do trolley, do cão, da carga, a palmilha do ténis que sai "porta fora" com o esforço da subida, o atacador que nos bate na perna e nos irrita, a mosca que tem socas e nos cai sempre em cima, o mosquito que nos morde, o sol que nos queima e fere, os carros que passam a alta velocidade e não querem saber quem és, se és, o lixo na berma da estrada que as pessoas insistem em deixar "cair", as montanhas que já estiveram cobertas de árvores portuguesas e hoje se cobrem de eucaliptos, malvados eucaliptos porque não os leva o fogo, a eles e ao negócio, a matrícula que passa do Luxemmburgo e da Suiça e de França e da Alemanha, carros alugados por um mês, talvez, a música que se ouve das aldeias, o bum bum bum do parolo que passa, os cartazes que anunciam as romarias com grupos sonantes como os Toc'Aqui, os Cá D'Aldeia, os Zumba ou os TZ Music! e mais uma sande de marmelada e queijo na berma, quando apanhamos sombra e enquanto o cão ressona, para depois continuarmos e encontrarmos, muitas vezes, estradas que já foram principais e que agora são só regionais, ainda com vestígios de quando as pessoas por elas caminhavam e carros de bois arrastavam e agora sem uso, com buracos de metro e trinta e novamente pessoas que caminham, mas em lazer.


Em quatro dias, só duas pessoas me dirigiram a palavra para dizer mais do que um boa tarde desconfiado. Vi-lhes na expressão tantas vezes um "Ai, é drogado, só pode ser..." ou, depois de um bom dia "Vamos, vamos, que é estranho, anda para aqui a pé. É estranho". Estas duas pessoas, uma no terceiro e outra no quarto dia, dirigiram-se a mim para falar do tempo, que talvez fosse chover e que eu fazia bem em estar ali abrigado. Fim! A segunda, se eu queria boleia, porque fazia muito calor! Fim! Nenhuma delas me perguntou se estava bem, nenhuma pessoa de nenhuma casa me ofereceu água, quis saber o que andava eu ali a fazer, para onde ia, de onde vinha, se queria "tomar" dois dedos de conversa. Nada.

E foi mais em busca disto que fui, de encontrar pessoas! Como o faço em todas as viagens! O que é engraçado, é que já tinha passado por esta experiência em 2010, quando eu e a Tanya decidimos fazer

Ovar - Praia do Carvoeiro, no Algarve, de bicicleta. 

Foi rara a pessoa, em treze dias, que se dirigiu a nós, ao ponto de, numa das paragens, colocarmos até um papel à nossa frente que dizia, "Podem aproximar-se que é gratuito!", porque viamos curiosidade nas pessoas e que passavam por nós pelas costas só para ver mais, mas nunca trocando uma palavra. O mesmo se passou agora. O povo gosta de saber, mas pelos outros!

E isto, apesar de ter adorado esta experiência, entristece-me, porque nos julgamos hospitaleiros, mas não, não somos. Somos só simpáticos! Infelizmente!

Porém, chegar ao destino a que nos propusemos após dias a caminhar, alegrou-me a alma! Chegámos por fim a Campo Benfeito, onde amanhã começa o Festival Altitudes e onde vamos ficar por uns dias, em descanso, mas também a rever pessoas que já não vemos há muito, outras companhias de teatro e desconhecidos que connosco, vão trocar "duas de treta", com certeza!

1 comentário:

Tânia Barreira disse...

Já por árias vezes tinha pensado nessa questão de ser-mos hospitaleiros, junta-se muito bem também à questão de quem vêm de fora é mais inteligente e melhor do que quem é de cá. Posso estar errada, mas penso que seja mais facil um estrangeiro arranjar alojamento em couchsurfing do que um próprio português, posso estar errada, mas parece-me que tudo o que vêm de fora com os emigrantes ou com turistas acaba por ser melhor recebido. E porque será?! bem e quero acreditar que é porque a insegurança nas aldeias e meios pequenos têm aumentado, e falo pelos meus familiares nessa zona, onde se muitas vezes oferecem 2 dedos de conversa acabam assaltados ou maltratados e depois como sempre paga o justo pelo pecador! Mas mais uma vez, posso estar errada em relação a tudo o que disse!

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