Dias em Teerão


Suo neste meu quarto de hotel em Teerão. Já fiz o teste: abrindo os braços, quase que coloco as palmas das mãos nas paredes opostas e deitado, toco com a minha cabeça na grade da cama e os pés na parede! Em televisão, aquecedor, ar condicionado, uma mesa, caixote do lixo, cinzeiro e um copo, uma almofada e um cobertor! Duas tomadas eléctricas, embora só uma trabalhe e luz natural vinda duma janela que posso abrir se quiser, com vista para os telhados alheios! Pequeno ao ponto de quase não dar para acreditar que cabe tudo cá dentro, mas sim, cabe! Além das minhas coisas e de mim, claro, porque isto dos hotéis capsula, não nasceu no Japão, apesar de perceber agora como lá foram ter. Além de mim, deve haver neste hotel mais uns sete estrangeiros: quatro dos quais, japoneses! A razão? Hotel barato, com tudo o que necessitamos, com casa de banho e chuveiro lá fora (pois para dormir é só necessária a cama) e cozinha, motivo mais do que suficiente para atrair viajantes low-budget...mesmo low-budget, não daqueles que gostam de se dizer como tal, mas não o são verdadeiramente, apesar de acharem que a palavra lhes fica bem. Enfim, conversa para outro post.


Dizia eu, suo no meu pequeno, mas aconhegadinho, quarto em Teerão! Estou cá há três dias e já dei por mim a descobrir coisas que antes nunca havia visto. Dei por mim a visitar lugares que adoro! Dei por mim a bebericar cafés em sítios que me são especiais! Dei por mim a sair com amigos que já não via desde Março! Dei por mim a caminhar até me doerem as pernas, pelo grande bazaar, que nada tem de muito bonito, verdade seja dita, mas que dita a história desta cidade! Dei por mim a descansar num parque e a pensar que ainda ninguém se tinha sentado para conversar! Dei por mim, minutos depois, a ver passar duas horas sem que desse conta, com o senhor Shaban, sapateiro de profissão, com os seus quase setenta anos, com uma educação a que já me fui habituando por aqui, que me falou de revoltas, revoluções, gerações, países, independência, saúde e das aulas de inglês que teve há poucos anos atrás, porque queria conversar com os turistas e não conseguia! Dei por mim a comer um gelado, pago pelo senhor Shaban! Dei por mim a seguir centenas de pessoas que entravam pela rampa dum parque automóvel acima, para descobrir um dos bazares mais caricatos que vi até hoje! Dei por mim a cumprimentar dezenas de pessoas e a sorrir a outras tantas! Dei por mim a insistir para pagar um sumo na rua e a ver o dinheiro ser devolvido, quando disse ser português. Não valeu a insistência, aquilo não era ta'arof (costume iraniano), era mesmo vontade de oferecer! Dei por mim a vaguear, apenas, pela cidade deserta duma sexta-feira, só porque sim, porque achava que ao ficar no hotel, poderia perder alguma coisa! Dei por mim, todos os dias, a regressar ao meu pequeno T0, de rastos!






E amanhã é um novo dia! Amanhã, dia 31 de Agosto, será um dia de ansiedade e vou passá-lo aos pulinhos, qual criança à espera dum presente de natal! Vou ter um dia preenchido, é o que me safa! Vou acabar a noite na montanha, jantando com os pais e irmãos da minha amiga Sahar, que é o que mais se aproxima da “minha” família aqui neste país! Depois, regressado ao hotel, de rastos, assim espero, não conseguirei dormir com certeza, com a ansiedade das 5h40...

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