Unesco e Hospitalidade

Estive outro dia a olhar para o mapa e a fazer uma pesquisa de mim mesmo. Estava curioso com o número de locais no mundo onde já havia feito um X, como que um caçador de lugares, em busca dos que a Unesco já incluiu na sua lista, para um dia, quem sabe, observar a quantidade imensa de caminhos por onde já fui levado em viagem. Para me orgulhar de lá ter estado também, mas esse é um bem menor!

Foram alguns, muitos mesmo, desde monumentos, a paisagens, a parques naturais, a escolas, casas privadas e até rituais, caminhos e músicas para o meu ouvido, fazem parte desta vasta lista. Porém, o que observei também,  é que a Unesco tem uma lacuna. O Povo!

Poder-se-á pensar em nomear um povo a património mundial da humanidade? Desconheço a maneira de fazê-lo por completo e de todo os critérios a usar, porém O Povo é o património maior!


Há-os às centenas, com todas as suas diferenças e costumes e não falo do Povo, como de um país inteiro, mas também um grupo de pessoas que se destacam. Uns que poderiam ser nomeados por lutadores contra uma ditadura, outros contra guerras ou pela maneira como sobreviveram a elas, outros pelo conhecimento que trouxeram à humanidade, pelo desenvolvimento cultural, da matemática, da economia, outros ainda pela gastronomia, ou pela descoberta de novas rotas que abriram novos caminhos ao comércio, pela descoberta de soluções e por aí em diante.
 

Há os Nobéis, é verdade, os Pulitzers e uns quantos mais prémios, mas destacam pequenos grupos de cidadãos ou somente um. Não se faz uma viagem a um país para se "ver" ou conhecer alguém que ganhou um Nobel.
 

Tudo porque terça-feira parto novamente (Uhhhuhhh!!!) para o Irão! Para quem tem medo do nome, pode chamar-lhe Pérsia, se desejar! Este é o país que, a partir do momento em que começa a minha ideia de lá regressar, à pesquisa dos voos mais baratos que me hão-de levar, até ao momento em que embarco no avião, me deixa em pulgas! Pulgas boas, muito boas!
A razão é simples, para quem já lá esteve, saberá certamente do que falo. Se há países para os quais viajo pelo património arquitectónico, pela natureza, pelo vazio do deserto ou pelas estradas construídas no abismo que rasgam as montanhas, este, o Irão, é um país que viajo por causa das pessoas! E aqui regressa a minha conversa sobre a Unesco e o povo, como pertencente a uma lista - não gosto do nome, mas é o que é - de Povo Património da Humanidade!
 


Quando falamos, em Portugal, de sermos hospitaleiros, o meu dedo roda sempre em volta do nariz e um ar de desconfiança pela palavra apodera-se da minha face. Hospitalidade e simpatia, são duas palavras com definições totalmente diferentes. Nós somos simpáticos e sim, sabemos receber, mas não somos de todo muito hospitaleiros. A hospitalidade para mim, é mais do que sorrir. É mais do que saber servir. É mais do que dar indicações na rua. É mais do que atender bem. É mais do que cumprimentar quem não se conhece. Muito mais. 

A hospitalidade para mim, é um misto de todas estas características, mas mais, é uma coisa que se sente quando somos por ela atingidos: é encontrar alguém na rua que nos guia por um mercado que é imenso e nos mostra cada recanto, cada segredo, nos conta histórias e após horas connosco, se despede! É conhecermos alguém que nos convida para casa da sua família para um jantar e nos dá a oportunidade de fazermos parte de um modo diferente de vida! É uma conversa enquanto se bebe um chá com um estranho, sobre a vida, a política, a religião, a família, problemas e soluções! Está na sinceridade de um gesto, de palavras que se dizem e na continuação de uma amizade duradoura! A hospitalidade está no erguer de um papel por dois estranhos - eu e a Tanya - que apenas dizia "Somos convidados" e na vénia que nos fizeram depois de o lerem, abrindo-nos a porta de sua casa, para pernoitarmos! Está no rapaz que nos escreveu esse papel, dizendo-nos com um sorriso "Esta mensagem, neste país, é suficiente!". A hospitalidade é verdadeira, quando tudo isto acontece sem que haja qualquer interesse monetário por trás, sem interesse mesmo de nenhum modo, que não seja o de bem receber, o de acolher bem e o de nos fazer sentir bem no seu país!

E é por isso que fico em pulgas de cada vez que, penso, pesquiso e voo ou melhor, aterro no Irão! Porque sei que vou encontrar toda esta genuidade neste povo e é por isso que tanto gosto deste país! A conversa da Unesco era, afinal, mais fácil de explicar, se tivesse logo começado por aqui, porque se há característica que deveria ser nomeada, era a hospitalidade e nisso, o povo iraniano, é exímio!

1 comentário:

fernando disse...

boa viagem rafael :)

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