Experiência de Viagem #4 - Egipto

Chegámos ao Egipto sem saber nada do Egipto. Sabíamos tanto como aqueles que descrevem países como Israel ou os Estados Unidos da América de uma forma generalista e fácil, orientando-se por aquilo que ouvem na televisão, em redes sociais onde todos inventam o que querem, misturado com uma boca que ouviram o vizinho gritar, mesmo que tenha sido uma palavra solta quando reclamava com o cão. O que sabíamos era que era enorme, tinha um rio chamado Nilo e tinha pirâmides, muitas pirâmides. Quando éramos crianças tenho a certeza que pensávamos que as pessoas lá viviam, nas pirâmides. Mas não, o Egipto não era só isso.



O Egipto é o maior país árabe do mundo. Tem pirâmides sim, mas não tantas como o Sudão. O Cairo é uma cidade alucinante com mais de mil mesquitas (é o que se consta, não as contei). As pessoas são agressivas, o que não quer dizer que sejam brutas no trato, mas o sangue árabe corre-lhes nas veias. Os adolescentes são muito chatos. O Nilo é realmente um dos maiores rios do mundo. As pirâmides de Giza não são no meio do deserto, mas sim ali mesmo, às portas deo Cairo, uma cidade com mais de 13 milhões de habitantes. As mulheres ainda são vistas como pessoas de segunda (mas isto não é só no Egipto, embora se note mais). Mas o que mais nos chocou, foi o conservadorismo. 









Mesmo que as mulheres não sejam obrigadas a tapar-se, quase que arriscaria que a maior parte o faz. A sociedade assim o obriga, pressionando. Há hoteis onde as mulheres não podem pernoitar, sequer entrar, noutros. E nós, não fugimos a esta regra. Foram várias as vezes em que fomos impedidos de ficar, não porque tinham algo contra nós mas porque "mulheres, desculpe, mas não". Outras foram as vezes em que nos perguntavam, fossem em hoteis, mesquitas com espaço para peregrinos ou casas particulares, se éramos casados, para que pudéssemos partilhar o mesmo espaço de descanso. A resposta era imediata: "Claro que sim. Há mais de 6 anos. Não vivemos no pecado!", e as pessoas acreditavam e isso bastava.


Um dia, porém, uma questão surgiu. E se alguém nos pede uma prova? Sabíamos que era chato mentir, já que as pessoas se acreditavam mesmo em nós e custava-nos esse acto "errado", mas por outro lado se assim não fosse, era raro o local onde podíamos dormir juntos ou, pelo menos, adormecer a olhar o outro.

No dia seguinte, enviámos um email ao nosso grande amigo Alexandre Rosas, o mesmo companheiro que nos desenhou o logotipo, pedindo que fosse nosso padre, padrinho e benção em pessoa e nos casasse, mesmo que sem despedida de solteiro ou convidados! Assim foi!

Semana e tanto depois, recebíamos uma fotografia do nosso casamento! Foi pior a emenda que o soneto. A partir dali, sempre que falávamos disso ou mostrávamos a fotografia a alguém e como grande parte das pessoas que nos dava guarida era em zonas rurais, onde a tecnologia de um Nokia com antena é a coisa mais avançada, era rara a vez que conseguíamos explicar que era falsa e que um computador consegue fazer coisas que não existem e quase prová-las (voltamos à questão de Israel e dos Estados Unidos da América, entre outros casos), pelo que a Tanya, com toda a curiosidade a vir da parte feminina das famílias - isto de falar de casamentos não é, pelos vistos, coisa de homem em nenhum lugar do mundo - desenrolava-se em explicações sobre como tinha sido a boda, o bolo, os convidados, o que havíamos comido, entre outros preparativos! Simplesmente, genial!

Experiência de Viagem #3 - Gemil, França

Saímos de Toulouse em direcção à maravilhosa Albi e, dezena e pouco de quilómetros depois, um carro pára uns metros à nossa frente, todo ele vermelho paixão e da porta do condutor, um sorridente cinquentão atravessasse na ciclovia por onde seguíamos e numa vénia também ela cheia de sorrisos, convida-nos a parar. O que nos esperava, mais do que uma vénia, um homem cheio de sorrisos e um carro vermelho paixão, era um dia extraordinário!

Ao seu lado, reparámos depois, uma loura espampanante, também ela entrada nos cinquentas e, quase que arriscávamos, cuidada na sua pele e pose ao mais alto nível de uma hospedeira de bordo, daquelas que os anos de experiência e charme fazem já mandar numa equipa cheia de meninas com sonhos de voo. Acertámos!



O Phillipe convida-nos a almoçar em sua casa, numa pequena povoação “ali já à frente, a uns oito quilómetros daqui”, de nome Gemil. Despedimo-nos sem nos conhecermos e avançámos calmamente no terreno. França é país de nos demorarmos, de tão perfeito que é para o cicloturismo! A placa avisava a entrada da povoação de si pequena, como nos tinha dito Phillipe. Outro carro atravessasse à frente e desta vez, outro estranho nos aguarda com sorrisos e ensaia um convite de “um café em minha casa!”. Aceitámos, obviamente! Hora e tal passada e tivemos que nos despedir, o almoço esperava por nós, bem ali ao lado. Na tentativa da partida, foi-nos esticada uma note de euros azul e num explícito “não vale a pena recusarem”, a promessa do envio de um postal, de um qualquer sítio longe dali, dizendo que havíamos chegado bem.


Não me lembro sequer de ter adaptado bem o meu corpo à geometria do selim, pois a distância entre as duas casas eram pouca. Um abraço ao Phillipe, dois beijos à Katia – a loura espampanante – e o almoço servido! Três dedos de conversa, países que eram apontados num mapa-mundo colorido afixado na parede dos sonhos, planos de viagem – de uns e de outros – e a tarde entrava pelo dia adentro. “Podiam ficar para o jantar e dormiam aqui” – surgiu repentinamente, na sequência do que já prevíamos. Que “não”, que “ainda só havíamos pedalado vinte” e quase nenhuns quilómetros, que não tínhamos “onde parar hoje à noite, é verdade”, mas que, que “Não sei”.


A persuasão de quem quer atingir um objectivo é sempre forte e para os fracos – nós – que queríamos era tudo novo, foi de tarefa fácil. Ficámos! A tarde desenrolou-se em partidas de golf, em gargalhadas e em previsões para o jantar, mais tarde, depois do jacúzi prometido! Voltámos a casa, cansados de tanta tacada falhada, cansados dos rins e dos maxilares e dos constantes “fait moi revê” do Phillipe, de cada vez que tentávamos acertar na pequena bola branca. O corpo pedia descanso e a água borbulhante do jacúzi a 39º, com o frio que estava cá fora, pedia corpos cansados. Despimo-nos e mergulhámos no frio da noite, água adentro! O Phillipe e a Kátia vinham,de quando em quando ao exterior, perguntar se tudo estava bem, que a pizza estava quase pronta e que, entretanto, poderíamos ir bebendo um copinho de vinho e outro de sumo, que nestas coisas não consigo ser romântico.




A noite acabou com uma deliciosa pizza de tantos sabores, o conforto de uma manta na conversa que continuou a desenrolar-se pela noite fora e numa cama que, não me lembro se era confortável ou não, mas que nos recebeu de lençóis abertos e nos fez dormir até de manhã!

Hoje é o primeiro dia!

“O talento da mente humana para tomar decisões é admirável. O interessante é que com a mesma prontidão que gera a decisão, desenvolve um oceano de premissas para a mesma. O resultado é o início de negociações com as pessoas que confiamos, de forma a justificar a nossa opção. O que procuramos não é aprovação mas sim compreensão. A decisão já está tomada e ninguém nos vai demover. Este passo pode parecer desnecessário, mas a procura da segurança de uma escolha correcta justifica-o. O passo seguinte é preparar os meios necessários para atingir o nosso objectivo.”


, do amigo Hélder

E é neste momento que estou, na fase em que estou já certo e decidido daquilo que quero fazer, num futuro muito próximo, mas à procura de conforto junto daqueles que me são mais próximos. Procuro, junto de familiares, mas também de amigos, conhecidos e pessoas a quem devo algum respeito pelo que já atingiram nas suas vidas profissionais, a ajuda para o segundo passo! Todos têm sido fantásticos, não sei se por gostarem de mim, se por acreditarem que aquilo que digo faz sentido ou se, por outro lado, são também eles sonhadores como eu e olham para mim como uma maneira de concretizarem uma parte dos seus sonhos. Seja o que for, sinto mais força, empenho e entusiasmo neste momento, com toda esta nova ideia de vida, do que em qualquer outro momento destes 30 e tantos anos a olhar o mundo!

O que não quero é estar daqui a muitos anos à espera dum autocarro numa qualquer paragem de um dia cinzento, ou a retirar o aloquete da bicicleta, já ela ferrugenta, de um varandim que já foi prateado e olhar-me no reflexo de uma montra e constatar que toda a minha vida estive num estado constante de adiamento. O que me faz realmente viver, noto mais uma vez ao fim de mais uns quantos anos é viver no limbo, na corda bamba, no não saber se vou ter como pagar as contas de amanhã, no desesperar pelo dia que se segue sabendo que me vai trazer, com toda a certeza, excelentes notícias, na ansiedade do desconhecido. É disto que vou morrer, sei-o, de algum mal do coração. Porém, se assim for, ele vai parar por ter vivido emoções a mais, riscos a mais, tentativas a mais, experiências a mais, ansiedade a mais, conversas a mais, projectos a mais, ideias a mais, sonhos a mais! 
Vai morrer mais MAIS e por isso, morrerei feliz!

Hoje é o primeiro dia!

Como dizia o jornalista do Público que fez a reportagem sobre o festival Fusing, para o qual fomos convidados (2numundo), na Figueira da Foz:




E foi sempre assim e só assim que soube fazer as coisas: pensar sempre que o que penso será impossível de concretizar, para que me dê luta a tentar demonstrar a mim próprio que, afinal, não é tão impossível assim! 

À minha frente, uma montanha para derrubar. O mundo é uma estrada sem fim! – e é frente a esta elevação de granito duro de roer que estou, neste momento, com um sorriso tão convencido da sua força, que não terei qualquer problema em rebentar a montanha toda, nem que seja à dentada!



Mais um carimbo no “passaporte”!

Experiência de Viagem #2 - Murgab, Tajiquistão

Murgab é uma pequena vila encalhada na Pamir Highway, no Tajiquistão, que serve de pouso a quem anda já há vários dias montanha acima, montanha abaixo, entre desertos a 4000 metros de altitude e cumes de 6000, entre rios de água gelada e lagos de água salgada. Murgab podia ser uma qualquer vila, desinteressante, apenas mais uma, no longo caminho que liga Dushanbe, no Tajiquistão, a Osh, no Quirguistão. Porém, é muito mais do que isso. Murgab é um take tirado de um filme!


Com o Muztagata como pano de fundo, conhecido como o Pai de Gelo, com os seus 7546 metros, do lado de lá da fronteira, na China, a vila desenrola-se na colina e aterra no mercado local e este sim, é uma experiência!


Distribuído ao longo de uns 200 metros, a quantidade de diferentes contentores, de todas as formas e feitios é, por si só, motivo de ver a máquina ser disparada umas quantas vezes. Mas não é só de contentores que alojam os pequenos comerciantes, que o mercado é feito. É também de pequenos restaurantes familiares, coloridos e com a decoração mais kitch que podemos encontrar, que fazem as delícias dos locais e dos viajantes. São também as pessoas de diferentes etnias que aqui convivem, vindas da China, do Paquistão, do Quisguistão, Afeganistão e claro, os tajiques! 



As caras das crianças queimadas pelo clima, os sorrisos que se escondem tímidos, por detrás de lenços às flores, as mulheres que distribuem o pão nos fornos a lenha. Os lavatórios tão típicos de quem ainda não tem água canalizada, as casas rectangulares sem quaisquer decoração exterior, porque é para isso mesmo que servem, para viver. Os esqueletos dos carros abandonados ao lado dos esqueletos dos animais que morrem.



Acabamos por ficar por Murgab mais dias do que o previsto, porque todos os dias são como se fosse o primeiro e mais um viajante chega e mais um cicloturista parte! Por ali nos ficamos, entre os contentores do mercado, com o Pai de Gelo a olhar-nos, lá de cima!

Experiência de Viagem #1 - Qara, Síria

Aquando da passagem pela Síria em 2011, tivemos a oportunidade de passar e permanecer em alguns mosteiros cristãos no caminho que nos levava para norte, à fronteira com a Turquia. Se o Mosteiro de Mar Musa era já considerado um dos pontos obrigatórios na passagem de viajantes, já o mosteiro de Saint James, the Mutilated, situado em Qara, foge totalmente à rota de quem não viajava na Síria de bicicleta ou a pé. A nossa intenção de ali chegar tinha um objectivo muito preciso: encontrar a freira portuguesa que ali vivia há dois anos! Tivemos conhecimento através dum padre francês que caminhava até Jerusalém e a nossa rota alterou para que a pudéssemos conhecer!




À nossa chegada e depois de termos perguntado por ela, uma voz surge ao longe, com um grande sorriso na cara e pergunta: O que é que vocês andam a fazer por aqui?". Ouvir português na Síria, num lugar remoto, foi uma sensação tão estranha, quanto maravilhosa!

Porém, não foi o facto de conhecer a freira portuguesa, o ter conhecido um belga e um americano que ali viviam também porque queriam dedicar-se à religião, o termos - mais uma vez - ajudado na vida comunitária do mosteiro, o silêncio, aquilo que mais nos marcou. O que nos levou às lágrimas, foi uma missa a que tivemos o privilégio de assistir ao fim da tarde.




Penso, muito sinceramente, que a Síria foi o ponto de viragem para que eu começasse a respeitar aquilo que, até ali, muitas vezes me opunha, de tão cético que era: a fé. Percebi, naquele país marcado agora por uma guerra sem fim e que, curiosamente começou no dia em que passámos a fronteira para a Turquia, o que é sentir fé. Não sou uma pessoa religiosa, embora o tema religião seja um dos que mais gosto me dá discutir e portanto não sou suspeito, neste caso. Naquela dia, um grupo da comunidade ortodoxa do Líbano tinha-se juntado, numa manifestação de paz, ao grupo católico do mosteiro para assim comemorarem a fé em conjunto. O que se passou durante uma hora naquela capela escavada na rocha foi, sem qualquer margem para dúvidas, uma das experiências mais marcantes da minha vida e que hoje, quando revejo os vídeos, ainda me arrepia. 



O padre falava aos crentes que, nós incluídos, seguravam uma pequena vela que iluminava a capela. Era a única iluminação! Crianças à frente. Adultos atrás. Crentes segurando a bíblia. Minutos depois, tão comum na cultura do médio oriente, a fé solta-se e com ela, o instinto do Homem que crê! Gritos, frases religiosas, canções, sorrisos, lágrimas, mãos no ar, pessoas ajoelhadas no chão gritando Aleluia, o padre que havia saltado do altar e fazia uma roda com as crianças, dançando, as vozes que cantam cada vez mais alto, a multidão que se juntava, ali, numa só voz. A multidão que quando junta a voz, nos faz ter medo, ao mesmo tempo que nos liberta e nos dá segurança. Um misto de emoções tão fortes se apoderou naquele lugar que reparava na cara da Tanya a mesma vontade que eu, soltar-me também eu, em lágrimas. 




Foi então que uma senhora, olhando para a maneira como sorria e olhava aquela "coisa" impressionante, me disse: Se quiser, pode chorar! - e foi ver-me qual menino, as lágrimas escorrerem-me pela cara abaixo e eu, tão estranho aquelas pessoas, a adorá-las tanto, por me permitirem partilhar um pouco da fé que têm!

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