o que vão dizer

sei o que vão dizer quando começarem a ler este blog: que sorte, poder ir assim, viajar! sei, porque já passei por isto uma vez quando decidi ir fazer voluntariado para fora do país e, por essa mesma razão, tive de tomar algumas decisões. na altura, diversos nomes foram-me aplicados, mas o mais repetido era cagão (sortudo, portanto!). era cagão porque ia deixar o trabalho. era cagão porque ia conhecer mais mundo. era cagão porque ia deixar a casa. era cagão porque podia fazer o que queria. era cagão por mais de mil e duas razões. era cagão e pronto! era cagão porque...no meu entender, não o era! os outros sim, são uns cagões (medrosos, desta vez!). o medo de arriscar. o medo do futuro. o medo de voltar e não arranjar trabalho. o medo de perder pessoas. o medo do desconhecido. o medo de viver. o medo do amanhã, do passo seguinte. o medo de olhar em frente.

nasci numa pequena cidade à beira mar desplantada. tão pequena, que a maior parte das pessoas, pequenas ficaram. tivesse o italo calvino visitado este sítio, e seria motivo de uma das suas cidades invisíveis. acharam que a proximidade do mar e de um ou outro aspecto mais interessante, os obrigava a ali ficarem. para sempre. quando volto a esta pequena terra, que só é pequena por vontade própria, encontro as mesmas pessoas, nos mesmos lugares, a ter as mesmas conversas, com os mesmos cigarros nos dedos, que já nem eu sei se serão os mesmos da última vez, a olhar para as mesmas coisas, com o sol a levantar-se do mesmo lado e a desaparecer num mar imenso! só o som desta palavra, imenso, deveria fazer com que as pessoas tivessem vontade de correr! mas não. continuam a olhar o imenso do mar, como uma barreira. como um deixar estar. observar o imenso, de um sofá, onde se acomodam e ficam. para sempre. aqui. e depois a frase. a famosa: aqui não se passa nada! com o maior orgulho do mundo. repetem-no sem saberem o que dizem, sem se aperceberem do que dizem. é como ir a uma igreja e rezar. é falar, sem saber o que se está a dizer. sem sentir o que se diz. caso contrário, fariam alguma coisa, por eles próprios. as pessoas queixam-se, a maior parte das vezes, da vida que escolheram. do que imaginaram para si. do sonho que têm. do pequeno que é.

contra mim falo e durante muito tempo senti-me assim. parado. sinto-me neste momento outra vez, mais uma vez, parado. saiu de casa quase todos os dias à mesma hora. subo a mesma rua. passo pelas mesmas pessoas. compro no mesmo supermercado. sento-me na mesma secretária. trabalho sem janelas no mesmo sítio. telefono às mesmas pessoas. volto a casa pela mesma rua. olho o mesmo céu. tomo o mesmo café. cumpro o mesmo ritmo. vivo a mesma vida. visão pessimista da vida, dirão uns. visão real, dirão outros! a minha visão. e não gosto. não quero. recuso-me a viver assim. aqui. parado.

quero sentir-me próximo do mundo. sentir medo do desconhecido...e não ter medo disso! lá!

2 comentários:

Sofia disse...

Sim, acho que sou tudo isso. Falta-me a coragem.

ana disse...

Percebo bem aquilo que dizes... A forma como os teus olhos vêem o mundo! Mas, não me sinto assim! Gosto da vida que tenho, desta secretária em que me sento todos os dias a (tentar) resolver os problemas dos outros, gosto de (quase) todos os dias diferentes, das pessoas diferentes, das vidas que me entram pela porta do escritório e que passam a fazer parte do meu dia-a-dia, dos planos de trabalho que nunca concretizo à risca, dos imprevistos e dos previstos. Gosto do café de todos os dias, em que todos me conhecem e em que eu conheço todos. Gosto desta sensação de me sentir em casa... Gosto da tua pequena cidade à beira mar desplantada, do que foi e do que será (acredito no fututo e na mudança)... Sou feliz à minha maneira... Quero ser mais feliz, luto todos os dias por isso e tenho a perfeita noção de que esta minha felicidade está bem longe do teu conceito de felicidade... Mas é a minha! Folgo em saber-te a lutar pela tua... Beijo Nitinha

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