ai ai ai

quando acordamos para dar início ao 2º dia de viagem, o bom tempo que fazia, o pequeno-almoço fantástico que nos aguardava e o facto de fazermos 3 anos de namoro, nunca nos faria prever que este dia seria uma autêntica tortura. foi. saímos, entre agradecimentos e desejos de boa viagem, para uma estrada que se mostrava sem grandes elevações, num tapete negro quase ideal, debaixo de um sol que nos aquecia aos poucos! nos primeiros metros de estrada, ainda parámos para fazer algumas (poucas) compras para o dia, para o nosso almoço e para stock! o atrelado da tanya começou então a imitar o meu, que já nos dia anterior começou a fazer um ruído que nunca havia feito. razão mais do que suficiente para, passados uns 200 metros, fazermos mais uma paragem – foram tantas neste dia - para pedir um pouco de óleo num mecânico e daí em frente foi sempre a andar…e de que maneira!

os primeiros quilómetros de viagem, deram-nos uma ideia do que iria ser o dia. cheio de subidas, algumas com mais de 15% de inclinação (sim, comprovei na internet). Pedalávamos a uma velocidade considerável, visto que no princípio eram basicamente descidas, coisa fácil para nós, só que, infelizmente, rápidas. dá-nos sempre a impressão que são muito mais curtas as descidas do que as subidas. fomos tirando umas fotografias, fazendo uns vídeos a velocidades alucinantes, guiando só com uma mão estrada abaixo, sempre com as ribanceiras a piscarem o olho mesmo ao nosso lado. o verde das montanhas, uma a seguir à outra, fazia com que nos deliciássemos minuto após minuto, em vistas incríveis! chegámos a parar uma série de vezes, só para a fotografia, coisa que, passados uns bons quilómetros, não nos passava sequer pela cabeça. as primeiras subidas a sério começaram a aparecer. pedalávamos devagar, ao nosso ritmo, sem pressas. as primeiras horas ainda deram para rir quando, no fim de cada elevação, decidíamos fazer um pequeno vídeo tipo entrevista, com conclusões da etapa! íamos comendo umas barritas para dar mais energia, bebendo muita água por um lado e bebendo um composto de água com Isostar, por outro. no entanto, e à medida que as mais íngremes se seguiam, optávamos por levar a bicicleta à mão, subir um pouco mais devagar, mas exigindo menos do nosso corpo. a etapa estava apontada para ser de 54km, por entre serras enormes, com pequenas aldeias que pintavam com outra cor, aqui e ali, o verde e castanho da montanha. numa das aldeias por onde passávamos, demos passagem a um jipe que se aproximou e que, quando passou por nós, da janela que se abriu ouvi “boa viagem rafa!”! fiquei pasmado e, quando este reduziu um pouco, reparei que era a sandra, uma conhecida de ovar que ali estava! impressionante onde se pode encontrar pessoas amigas! aos 30km e já depois de termos feito grande parte do dia por um caminho de cabras que subia montanha acima, decidimos parar no meio dumas árvores e “almoçar”! pão com queijo que nos soube pela vida, umas rodelas de milho tostado, chocolate e muita água! só nos faltavam 24km e estávamos ansiosos pelo fim, por chegar a casa dos nossos amigos neusa e rui em campo benfeito, aldeia onde íamos ficar essa noite e onde um banho quentinho e uma comidinha deliciosa, tínhamos a certeza, nos esperava!

o pior, veio a seguir. as nuvens começaram a chegar uma atrás da outra, escuras e carregadas de água. o nevoeiro e o frio. as serras que se seguiam uma atrás da outra. as poucas vezes que descíamos, eram para nós uma tortura, porque além do imenso frio que estava, sabíamos que “não há bela sem senão” e por isso, logo a seguir a passarmos junto a um rio, mesmo ao seu lado, sabíamos também que tínhamos de subir muito, porque a estrada que procurávamos, “é aquela ali em cima no topo” – diziam-nos. o melhor, foi quando chegámos ao topo duma dessas serras que disseram que a estrada era a tal lá em cima e uma senhora nos disse que estávamos no caminho certo e que agora, quando encontrássemos uma bifurcação, era a estrada da esquerda e era sempre a descer…santa senhora! descemos mais de 3km…uma festarola! mas ao olhar para o mapa que levava, lembro-me de ter dito à tanya que desconfiava, pois não via aldeia alguma no mapa, mas a estrada por onde descíamos a alta velocidade, estava sarapintada de aldeias. ao encontrar um café, comprovaram. a santa senhora havia-nos enganado e a estrada era sim, ali perto, mas tínhamos de subir de novo aqueles 3km e virar à esquerda e não à direita. detestamos a santa senhora. na subida, toda ela feita à mão, pois era super íngreme, começou a chover torrencialmente e nós de calçãozinho e camisolinha de ciclista. Enfrentámos a chuva armados em campeões durante mais 6 ou 7km, mas depois, ao chegar a outra aldeia, onde um senhor que nos disse “trabalhei na câmara durante 36 anos, mas agora estou reformado, e conheço estas serras como a palma da minha mão e a estrada que vocês procuram é aquela ali em cima. portanto vocês agora descem até ao rio e passam naquela ponte nova, mas que já está feita faz uns anos e depois sobem cerca de 3 ou 4km e apanham aquela estrada. a partir daí, é quase sempre plano até ermida. coisa de 10 ou 15km até lá. é fácil e vocês vão nas calmas!”, mas quando olhou para a tralha toda que levávamos, corrigiu “mas ainda demoram, se calhar, umas 2 horitas” – coisa fácil! descemos, subimos e comemos tudo o que tínhamos. chocolate atrás de chocolate. água atrás de água. chuva atrás de chuva. frio e mais frio. muito. já nos tínhamos enganado uma série de vezes, ou seria melhor dizer…já nos tinham enganado uma série de vezes? os 54km de etapa há muito que tinham passado. já tínhamos 60km marcados e o destino não estava à vista. o tempo escurecia. não sabíamos onde estávamos. minimamente. parámos um carro, um dos poucos que passou por nós em todo o caminho. “esta estrada vai dar onde?”, ao que nos responderam castro daire, que conhecíamos perfeitamente e que ainda ficava distante do local onde iríamos ficar, mas logo a seguir disse “mas é sempre a subir…5 ou 6km”. no entanto decidimos continuar pela estrada fora. era de noite. estávamos desesperados. subimos desta vez de bicicleta, colocando o corpo ao limite do esforço. aguentou! depois de chegarmos, já noite cerrada e mandando parar outro carro, disseram-nos que campo benfeito ficava ainda a 25km dali. primeira desistência. será desistência? optámos por descer até aos bombeiros, pedir que nos guardassem as bicicletas até ao dia seguinte e telefonámos à neusa para nos vir buscar. tremíamos, estávamos completamente encharcados, cheios de fome, mortos por um banho! telefonámos aos nossos pais a dizer que estávamos vivos e ainda fizemos mais um vídeo de resumo do dia! havíamos feito 70km. não sei onde andámos às voltas e onde nos enganámos, mas se tivéssemos ido até campo benfeito, teríamos feito 95km e não os 54km previstos no início. o rui chegou uns momentos depois e levou-nos para a sua “casa de bonecas”! depois de um duche a escaldar, uma feijoada de tofu esperava-nos. deliciosa! o resto do tempo foi passado a contar as histórias do dia e a mostrar as fotos e os vídeos. quando caímos no colchão e depois de termos passado uma hora a abanar a cama do rodrigo (outro amigo nosso) para que este deixasse de ressonar, adormecemos como uns anjinhos!

quando acordámos e olhámos pela janela, um manto de neve recebia-nos lá fora! o branco gelado sobre a montanha e o quentinho dentro de casa!

5 comentários:

De Cabo a Cabo disse...

Ui, ui...
Vejo que enfrentaram as agruras da serra! O rio da foto é o Paiva?!
É que o vosso relato fez-me lembrar a minha recente caminhada por essas bandas, quando ao 3º dia, saindo para Nodar à procura de almoço, nos disseram que teríamos de subir 'aquela estradinha', coisa de 15 minutos... Demoramos 30 e parecia infindável! E o pior foi que ao chegar ao cimo, nos disseram que não era por aquele lado... voltamos a descer com uma vontade enorme de 'atirar' a - parafraseando-vos - 'santa senhora' ao tanque, onde quando partimos lavava roupa...

Enfim... continuação de boas pedaladas!

familia Palma disse...

as aventuras, para nós que lemos é fantástico...coragem em frente é o caminho...já agora SANTA PÁSCOA

AKI JAZz disse...

Coragem amigos, pois estes primeiros dias serão os mais dificieis de toda a viagem, sera necessaria mais força fisica e mental, depois entram na rotina e tudo sera mais facil e descontraido...

Pedaladas Felizes!!

Helena disse...

Olá

Ai que até me arrepiei... só ao ler o texto, imagino aí na montanha!! Coitadinhos..

Mas agora, com um sono repousante, e ainda por cima com uma paisagem de neve ao acordar, aposto que já estão recuperados :)

Vá, força!! Boa viegem.
beijinhos
helena

Troca Letras disse...

Isso é que foi pedalar
é por isso que eu viajo com GPS e faço os tracks no Google Earth, e nuca tive um engano e já fiz muitos km em Portugal assim.

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