do lado de lá!

o dia 14 ficou marcado pela entrada em espanha e pela calma. apesar de termos feito 86km, só a parte inicial, logo aos 20km, é que teve uma subida digna desse nome, quando cruzamos do lado português para o lado espanhol, pela barragem do picote, em miranda do douro. nunca lá tínhamos estado antes, mas o sítio onde foi construída é espectacular. ainda para mais, com a maneira como estava o dia, o tom da água era de um verde intenso, que mais parecia um pântano a um rio! ainda antes disso e depois de acordarmos e tomarmos o pequeno-almoço, foi tempo para uma última foto em palaçoulo, junto da família de ovar que nos recebeu calorosamente! de presente, ainda recebemos duas navalhas de palaçoulo, com faca e garfo e abre capsúlas! vai ser a delícia da nossa viagem! a partir do momento que saímos e até miranda do douro, pouco se conta a não ser a vontade imensa de atravessar a fronteira, para nos sentirmos realmente a viajar...noutro país! a descida à barragem do picote, justificava agumas fotos e um vídeo em plena estrada, enquanto se aproximava a "linha" que divide os dois países. já do lado de lá, foi tempo de tirar a tão famosa fotografia junto da placa azul que anunciava o começo espanhol! alegria! tínhamos conseguido! do lado espanhol, tudo é mais fácil no que toca a pedalar. as montanhas que já se mostram tímidas à saída de portugal, desaparecem quase por completo em espanha. as curvas escasseiam, as rectas imensas sem fim à vista, cansam só de ver. são quilómetros e quilómetros de rectas, cortadas poucas vezes por uma curva que, surpresa, dá início a outra recta sem fim. cansativo à vista, consolo para o corpo! a nossa intenção era dormir em zamora, talvez um albergue de peregrinos, não sabíamos. a meio, parámos numa pequena vila da qual não me recordo o nome, "estacionada" no meio do nada, com uma igreja e a sua torre altaneira, mas na qual os sinos só decoravam, pois quando se ouvia as badaladas, sabia-se perfeitamente que vinham de 3 altifalantes verdes, no cimo de um poste, no telhado de uma casa velha que não descobrimos o que era...modernices. a massa com queijo feita logo pela manhã em palaçoulo e comprada no dia anterior em foz côa a 77 cêntimos, serviu-nos de refeição, acompanhada por água del cano e uma maçazita ao fim, dividida em dois, pois não tínhamos mais! daí até zamora, foi um instante. o corpo pesava. ansiávamos por um banho quente. não sabíamos se o íamos conseguir ter, pois não havíamos marcado nada, não tínhamos arranjado ninguém pelo sites de internet, não sabíamos sequer se haveria sítio para montar a tenda algures, apesar de no dia anterior ter andado a espreitar através do google maps os jardins mais próximos para, caso não existisse mesmo nada, acampar! depois de tantas rectas e já desgastados pelos últimos dias de viagem sem qualquer descanso, sempre que aparecia uma elevação digna desse nome, reduzíamos a velocidade rapidamente. custava. a certa altura, vendo a tanya completamente de rastos...ou seria melhor dizer, de restos...decidi começar a caminhar com a bicicleta ao lado, mas sem lhe dizer nada, subida acima. a velocidade com que caminhava era maior que a que ela levava a pedalar conseguindo até fazer uma ultrapassagem! o delírio! havia partes do corpo que começavam a dar de si. os joelhos, claro está, mas também as nádegas...finalmente elas a chamar a atenção devida. moídas. tão mal tratadas, que não se queriam sentar e quando o faziam...massacravam. ai. ai. ai. à noite, lauroderme, não há como escapar! chegámos a zamora 86km depois. estava frio e começava a chover aos poucos. numa farmácia, informaram-nos que o albergue de peregrinos ficava do outro lado da cidade. pedalocaminhando até lá, e já depois de subirmos com as bicicletas para dentro do albergue, tivemos que ir tirar o "passe" de peregrino numa catedral próxima, onde viviam - disse-nos o responsável pelo albergue - freiras. depois de uns momentos passados à procura do sítio, tivemos umas das experiências mais estranhas desta viagem até agora. comparo-a a um chat na internet, mas sem ser num espaço virtual. passo a explicar. descobrindo uma campainha mínima numa janela super escura, surge do outro lado uma voz que me diz palavras imperceptíveis. encosto o ouvido e nada. ouço uma porta fechar-se. digo para a tanya: "tenho a impressão que deve ser aqui, mas isto é tão estranho. nem sei quem está do outro lado..." e volto a repetir a façanha. desta vez, à voz que parecia rezar na minha direcção, decido dizer num espanholês perfeito: "tarjeta de pelegrino" e do outro lado "hdiwss jdidsk nd shg camiño", pelo que pensei que talvez me tivesse a perguntar que caminho de santiago faria. "via de la plata" - respondi, mesmo sabendo que não o ia fazer, só parte do caminho francês, mas como estava em zamora, ainda muito longe dele, decidi-me pela via de la plata. do outro lado pedem-me 4 euros! coloco 20 numa roda de madeira gigante, como as que existem na farmácia para atendimento nocturno, e quando esta roda, ele desaparece. mais um instante e depois de mais palavras faladas não sei em que língua, surgem uns papeis para assinarmos. vira a roda e quando surge de novo, vinha com os papeis carimbados e o troco! já podíamos ficar no albergue!

a comparação com o chat de internet, surgiu como? falamos com uma pessoa que não vemos e nem sabemos se existe sequer. temos uma conversa surreal. trocamos informações. pagamos alguma coisa, com a diferença de que ali foi com dinheiro real e na internet é com o paypal (por exemplo). semelhanças, ou talvez não...


o albergue tem muito boas condições e depois de pagar a estadia - será que é em todos que se paga? - tomamos o tão sonhado banho, colocámos as coisas nas camas e fomos comprar coisas para cozinhar. durante o jantar, ainda estivemos na conversa com uma francesa de 64 anos, que fazia a via de la plata sozinha. foram quase duas horas de conversa, onde a nossa viagem e a razão pela qual ela fazia os caminhos desde 2000, vários por ano, ocuparam parte da mesma! foi um serão diferente! os contactos ficaram e quem sabe se na nossa passagem por frança, não nos voltamos a encontrar! enquanto a tanya dormia no sofá, ainda aguentei os olhos abertos e consegui escrever um texto para o blog. os beliches no quarto, viram-nos chegar já passava das 24h e do deitar ao adormecer, foi "um piscar de olhos"!



3 comentários:

De Cabo a Cabo disse...

Boas!

Vejo que está tudo a correr lindamente, apesar de algumas dores... o que até dá outra expressão à viagem!
Só uma sugestão; se ainda estão por Valladolid e vão seguir a estrada N-122 no sentido de Aranda de Duero, façam uma pequena paragem em Penãfiel para visitar o castelo. Acho que vale a pena...

Abraços e continuação de boas pedaladas.

P.S. - ainda não sei como comprar a t-shirt...

Troca Letras disse...

É o máximo viajar nutro pais sentimos mesmo ciclo turistas
Eu que vou fazer o caminho de Santiago de bicicleta em 2010, estou a ver como é que é fazer o caminho francês ao contrario.
Uma resposta paga-se quase em todas os albergues, pelo menos no caminho francês

Gustavo Ribeiro disse...

Passaram por uma das mais belas terras de Portugal! Miranda do Douro! Terra da nossa segunda lingua O MIRANDES! Um a parte a barragem da foto não e de pela barragem do picote! Mas sim de Miranda do Douro. Picote são uns valentes Kms mais a baixo ;)

Va Boa Viagem e parabéns pela vossa força de vontade!

Posts mais populares