estranho dia


Um último agradecimento ao porteiro e partimos num dia solarengo para Bosra. Tentámos esquecer os problemas do primeiro dia, decididos a dar uma segunda oportunidade à Síria. Neste dia iríamos conhecer um Couchsurfer, é sempre bom conhecermos alguém do país para percebermos como as coisas funcionam.
Ao chegar a Bosra encontrámos um holandês que também viajava de bicicleta, ou melhor, numa senhora bicicleta, daquelas que fazem uma dor muito grande no coração quando caem ao chão. Toda a tecnologia existia naquela bicicleta, mas nós estamos orgulhosos das nossas, que se estão a portar muito bem. Foi preciso chamá-lo bastantes vezes para ele olhar para nós, pois ele pensava que eram mais miúdos a chamar a atenção. Por vezes, é preciso fazer ouvidos mudos, é verdade.
Antes de conhecermos o nosso anfitrião, parámos para comprar pão.
- 50 libras? Não está caro. - disse o Rafael.
Eu costumo achar tudo um pouco mais caro, mas não disse nada para não estar sempre a reclamar. Até porque o homem parecia simpático, mostrando disponibilidade em abrir um compartimento para nos podermos aquecer no seu interior. Agradecemos, mas queríamos ir ao encontro do nosso anfitrião e deixar tudo no quarto, para passear um pouco pela cidade.
Chegámos ao local combinado, “Mil e uma noites”, nem mais nem menos que um restaurante e hotel. Pedimos para falar com o nosso “amigo”, mas o irmão informou-nos que não estava e perguntou o que queríamos.
- Não está?! Mas tínhamos dito que vínhamos hoje. – disse o Rafael.
- Ficámos de nos encontrar aqui. Não temos aqui o número dele, podes dar-nos para entrarmos em contacto? – perguntei.
- E quanto é que me pagam para vos dar o número? - respondeu.
“O quê?! Mas aqui as pessoas só pensam em dinheiro?”, pensei. Ao que parece, ele estava a brincar. Mas não nos deu o número, ligou do dele. Estava incontactável. Explicámos o que estávamos ali a fazer.
- Pois, mas isto é um hotel - dizia ele.
- Pois, mas nós não sabíamos que era um hotel. Entrámos em contacto pela Internet e ele disse que podíamos ficar cá. - disse o Rafael muito calmamente, tentando explicar também o que era o espírito do Couchsurfing. Parecia que o irmão não estava a acreditar muito em nós e por isso o Rafael perguntou se era possível utilizarmos a Internet, para lhe mostrar que não estávamos a mentir.
Eu fiquei lá fora à espera dele, comendo frutos secos e a tentar pensar que tudo iria acabar em bem, pois não estava a gostar nada do ar irónico do maior. O Rafael chegou, sem ter conseguido mostrar nada.
- A net não funciona. Sabes o que é que ele comentou em relação ao Couchsurfing? Perguntou-me “como é que as pessoas ganham dinheiro com isso?” Acreditas? Mas temos sítio para ficar. Ele dispensou uma parte da sala de jantar para dormirmos.
- Ok, tudo bem. – respondi. Vamos tentar não nos cruzar muito com ele e tudo fica bem.
Entretanto ele chega.
- Preciso dos vossos passaportes.
- Passaportes? Não deixamos os passaportes em lado nenhum e não ficamos em nenhum quarto do hotel, por isso para que precisam dos passaportes? No Couchsurfing não se pedem passaportes a ninguém.
Tentámos, em conjunto, dizer tudo isto, mas sabemos que ele não percebeu nada. O Rafael perdeu a calma e não quis ficar lá. Fui atrás dele, pois já me estava a chatear sem necessidade. Pegámos nas bicicletas e partimos.
Vimos uma carrinha dos bombeiros e parámos. A porta do ‘quartel’ abriu-se e fomos convidados para entrar. Todos estavam sorridentes e quando chegou o pão, demos por nós a molhá-lo no tomate cozinhado. Éramos bem-vindos e estávamos todos contentes. Tínhamos sítio para ficar e não era preciso montar a tenda. Íamos ficar num compartimento no meio do jardim, propriedade do guarda deste, que não mostrou problemas em ficarmos lá. Passados uns minutos, percebemos que já não íamos ficar lá, pois o guarda foi embora, esquecendo-se de nos deixar as chaves.
- Não há problema, dormem em minha casa - disse um. Momentos depois, “ai e tal, afinal não podem, pois eu trabalho para o Estado e posso vir a ter problemas, desculpem. Mas não há problema, montam a tenda mesmo aqui ao lado!”
Qualquer coisa serve, queremos é dormir! No meio do dormem ali, dormem aqui, encostei-me e fechei os olhos. Acordei com um homem de fato-de-treino azul a perguntar-me onde tínhamos o dinheiro.
- Dinheiro?! Mas qual dinheiro? Não temos dinheiro.
O Rafael chamou-me.
- Mas quem era aquele? Que confusão!
Mordi várias vezes o lábio para manter a calma.
- São polícias e não podemos ficar cá. – disse o Rafael.
“O quê?!” Tudo bem, pegámos nas bicicletas e despedimo-nos de todos. Metros depois, lembrei-me que me tinha esquecido de uma coisa e voltei para trás. Um  guarda correu para me acompanhar. Simpático.
Entretanto, houve um pequeno diálogo do polícia com o Rafael.
- Ela não fala inglês? - perguntou o homem de fato-de-treino azul.
- Sim, mas entre nós falamos português, pois somos portugueses.
- Mas nós não percebemos português, por isso, falem em inglês! - disse ele.
Ainda bem que ele não exigiu que falássemos em árabe. Já não estava com boa cara e ao saber disso fiquei possessa. O Rafael tem mais facilidade em manter a calma, mas eu, com certos homens, tenho muita dificuldade!
Fomos até ao posto da polícia e prepararam-nos um chá. O comandante não esperou que a água fervesse e chamou-nos para o seu gabinete gelado. Eu não podia falar português com o Rafael e recusava-me a falar em inglês com ele. Quando falava em português, o Rafael, para não termos problemas, não me respondia e tentava nem olhar para mim. Começava a ficar chateada com a situação e mais chateada fiquei quando vi entrar o rapaz do hotel. “Mas o que é que este está aqui a fazer?” Vinha todo simpático e dizia que tudo tinha sido um mal-entendido. O Rafael já tinha dito que não tínhamos dinheiro para ficar num hotel.
- Como viajam sem dinheiro? - perguntou o comandante.
Valeria a pena explicar que temos dinheiro, sim, mas não o suficiente para ficarmos todas as noites num hotel, durante tanto tempo e que preferíamos ficar com os locais? Será que ele ia entender?
- Só temos dinheiro para comer. - dissemos.
Acompanharam-nos ao hotel, onde o rapaz disponibilizou um quarto. Já não era o compartimento que tinha horas antes, agora era um quarto a sério. Ficámos duas noites, tentando passar o mínimo tempo possível lá dentro. Claro que não pagámos nada e claro que não gostámos nada da experiência.
Fim do segundo dia: confusão! Estaríamos na mesma Síria de que todos falam mil maravilhas?

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