last days

Chegar a casa do Hamid e conhecer a sua mulher e a sua filha de quase 3 meses, foi como chegar a nossa casa. Estávamos cansados do longo dia e do stress que foi pedalar em Teerão. Ficámos com anfitriões profissionais! Pessoas com um enorme coração, sempre prontas a ajudar e sempre com conversas de longas horas. O tema principal era a religião mais especificamente o Islão e o Corão. Foram conversas bastantes abertas e sinceras e ele sempre que podia, dizia que o Rafael era um bom Muçulmano. Eu cá não sou… gosto muito de uma boa pinguinha de tinto e de uma cerveja geladinha acompanhada com tremoços!
Olhar para este casal, dá vontade de nos fecharmos no quarto e fazer um filho o mais depressa possível! Parece tão simples! Há tanto amor, tanta paciência, tanta alegria naquela casa! Assistimos ao 3º mês da filha! Grande festarola! Toda a família se reuniu e jantaram depressa para depressa arrumarem tudo da mesa, para dançarem depressa para que depressa chegasse o bolo, ou melhor, os 3 bolos e depressa entregarem as prendas para terminarem a festa e irem depressa para casa pois, no dia seguinte, é dia de trabalho.
Para nós, foi dia de vistos… e é sempre um dia terrível! As moradas das embaixadas nunca estão correctas e nem os taxistas sabem onde elas se encontram. Essa é a única dificuldade porque, até agora, tem sido muito simples ter os vistos nos passaportes! Disso não nos podemos queixar!
Quando chegámos à embaixada do Turquemenistão, vimos um senhor de barba branca. Iraniano é que ele não era, disso tínhamos a certeza!
- Não és português? – Perguntei com um ar de felicidade.
Claro que é português! Em Buein Zahra, tinham-nos dito que há uma semana atrás, tinha ficado um português com eles, que anda a viajar de bicicleta. Vimos a fotografia dele e ao vê-lo, aquela barba não enganava ninguém. Tinha de ser ele!
- Eh… sim, mas… o que se passa? Como… eh… - Estava admirado e confuso.
Explicámos como o conhecemos e tudo ficou esclarecido.
Mais um português com os pés nos pedais! O Armindo partiu com 14 anos para França mas o seu coração é português. A reforma estava a aproximar-se mas não quis esperar por ela para partir em viagem com a sua mulher. Começaram em Portugal e, na Síria, as saudades dos netos foi mais forte. A mulher voltou para a França e o Armindo continuou caminho sozinho.
- Era a minha mulher que falava inglês. Agora não percebo nada o que este gajo quer. Estou há mais de 4 horas aqui à espera e ainda não tenho o meu visto! – Queixou-se.
Ficámos com ele e ajudamo-lo a sair dali com o passaporte na mão, com mais um visto para a colecção. Almoçámos juntos, trocando histórias e peripécias. Nós terminamos em Macau e ele não tem destino nem prazo para terminar! Está reformado e com um mundo para conhecer.
Em Teerão fizemos novos amigo e reavimos um! Durante a nossa estadia no mosteiro de Mar Musa, na Síria, conhecemos o Reza, um rapaz iraniano que mora na Suécia, com quem simpatizamos. Deixou a Suécia há dois anos para caminhar até à Índia!
É sempre muito bom voltar a ver pessoas que conhecemos durante a viagem. Juntos, apanhámos um autocarro que demorou 12 horas, para Shiraz e o Reza tratou do alojamento. Enviou várias mensagens para o Couchsurfing e em poucos minutos recebeu um telefonema.
- Reza? O teu nome de família é-me familiar. – Disse a prima do outro lado do telefone, sem ainda saber que existia esse grau de parentesco entre eles.

Passámos quatro noites em casa da família, que não via há mais de 12 anos. Fomos de novo rodeados de comida e comida a toda a hora!


De Shiraz pouco vimos. Escondíamo-nos do calor dentro de casa e ao fim da tarde saímos para um piquenique nos enormes jardins ou para a casa de amigos. O que nos vai ficar na memória será sem dúvida os gelados! Farudé - Não fazemos a mínima ideia do que é feito mas faz lembrar noddles gelados e os sumos de cenoura com uma enorme bola de gelado dentro! Para nós, eles têm os melhores gelados!
Deixámos o Reza em família e subimos para Esfahan, a cidade mais bonita do Irão. È realmente a pérola do Irão! Ficámos em casa de um casal que dentro de alguns meses, irá emigrar para o Canadá. Mais um casal revoltado com o país. As conversas rodaram à volta da política e da religião e mais uma vez estivemos com um casal formidável que nos levavam a piquenicar aos jantares nos enormes jardins repletos de famílias.


Em Esfahan, conhecemos a Catarina, uma portuguesa de Aveiro que mora em Dublin e que nos arrependemos de não ter tirado nenhuma fotografia para recordação. Ela encontrava-se no Irão em trabalho. Estava a fazer a assistência de realização de um filme. Soubemos da sua existência quando respondemos a um rapaz que éramos portugueses.


- Portugueses? Há ali uma rapariga portuguesa nas filmagens de um filme que estão a rodar na mesquita. Penso que seja uma das actrizes. Querem beber um chá e ver as bonitas carpetes?
Agradecemos o convite mas estávamos curiosos para conhecer essa portuguesa, possível actriz. Prometemos voltar nos próximos dias para um chá. Fomos à mesquita que se encontrava fechada mas fomos teimosos e conseguimos entrar e estar com ela. Não é actriz, mas é portuguesa!

Ficámos satisfeitos com a nossa visita e estar na segunda maior praça do mundo! O bazar é gigantesco e continuámos a comer gelados como se não houvesse amanhã. A cidade está repleta de espaços verdes e as famílias juntam-se ao final da tarde para encher cada espaço vazio do gigante tapete verde.
De novo em Teerão depois de nova viagem de autocarro de muitas horas. Fomos buscar as bicicletas e quase que tivemos um ataque cardíaco. Eu sabia que alguma coisa ia correr mal. Eles foram do mais antipático e do mais ignorante no dia que deixámos as bicicletas. Chegámos à loja e a única coisa que mudaram, foi a cassete da bicicleta do Rafael. Nem trocaram correntes, nem afinaram, nem mudaram os travões… nada, não fizeram nada. Não estávamos com boa cara e eles ficaram preocupados. Não mostraram nenhum profissionalismo, nenhum entendimento no assunto. Pediram para voltarmos no dia seguinte que teriam as nossas meninas como novas. Voltámos e já estava com outro aspecto mas quase que voltávamos a ter outro ataque cardíaco… 250 dólares?! Reclamámos com o preço mas só estava um empregado. Pedimos para ver o que estávamos a pagar e no meio das contas estavam 25 dólares do táxi. Recusamo-nos a pagar esse valor e dissemos que só tínhamos connosco 200 dólares. Fomos enganados e detesto essa sensação. Estivemos a ver os preços das peças e eles aumentaram todos os valores! Foram terríveis mas não vamos deixar morrer esse assunto.

Não podíamos perder mais tempo no Irão… o nosso visto estava a terminar. Fomos até Mashhad de comboio e parecia uma criança… Nunca tinha dormido num comboio com camas! Cada cubículo tem 6 camas, as primeiras, são os bancos e as camas do meio, são o encosto que levanta para fazer de cama. Só tinha visto nos filmes e estava contente por fazer uma viagem de noite naquelas condições!


Em Mashhad ficámos com o Hamed e a sua mãe. No primeiro instante, ficámos com um pé atrás mas depressa nos sentimos à vontade e nos divertimos.


Até a fronteira foi um tirinho muito custoso. Na 1ª noite ficámos no Crescente Vermelho, na 2ª ficámos numa mesquita e na 3ª num hotel. Três dias a pedalar contra um vento terrível, com calor acima dos 40 graus e com pouca água. Na noite do Crescente Vermelho, fomos convidados por umas senhoras para um chá no interior da casa. Ficamos rodeados de mulheres e crianças. Elas fumavam shisha mas eu desisti de as acompanhar por ter um sabor tão forte a tabaco que arranhava a garganta. Preferi vê-las a fumar, observar os movimentos que faziam, o fumo a sair pela boca e o passar daquele objecto tão bonito. Estávamos numa pequena aldeia e mesmo sendo ela pequena, as famílias não têm mais de dois filhos. Não os sentimos tão conservadores como a ideia que tínhamos.
No 2º dia, não fizemos mais de 60 kms. O vento continuava forte e deixou-nos K.O. Ficámos emocionados quando um senhor nos perguntou se queríamos dormir na mesquita. Estávamos com fome e cansados e aquele convite, era tudo o que queríamos ouvir! Tivemos direito a banho e a uma bela noite.


Até Sarakhs sofremos muito. Muitos quilómetros feitos, muito calor e de novo, muito vento de frente. Nas horas de mais calor, abrigámo-nos numas ruínas e ficámos encolhidos numa linha de sombra. A pouca água que tínhamos estava a escaldar. O Rafael apanhou boleia para ir buscar água e chegou como se tivesse nas mãos um tesouro! Estávamos felizes com aquela água fresca!
Chegámos de noite em Sarakhs e a polícia não nos largava. Mostrámos os passaportes e quando continuámos a procura de sítio para dormir, reparámos que a polícia nos estava a seguir. Um polícia de trânsito fez-nos sinal para virar à direita e nesse momento, outro carro da polícia pára. Disseram-nos para os seguir e levaram-nos para o hotel que estávamos à procura. Muito caro! Não aceitámos ficar lá. Voltámos para a entrada da cidade, para a única esperança. A polícia continuava a seguir-nos e nós já não estávamos a achar piada. Não nos largaram até terem a certeza que ficaríamos num hotel. Não entendemos o porquê e só ficámos no hotel depois de muito discutir o preço. Passámos as duas últimas noites num hotel a descansar para o novo desafio: Turquemenistão!
Sobrevivemos ao Turquemenistão mas podemos dizer que não foi nada fácil e agora sabemos que não queremos repetir...

2 comentários:

Daniela disse...

Adorei a cabeça rapada!! Muito nice Rafael!!!

V.Lavoura disse...

Quanto à viagem desenrolada pelos amigos Rafael e Tanya que espero que tenham a justa vitoria de chegar a Macau, pois eles são de Ovar e eu sou de Lisboa com familia nessas zonas, Estarreja e Torreira. A aventura já me esta no meu sangue desde os meus 38 anos, pois já tenho cerca de 90000 Kms de pernas, tendo viajado pela Europa em varios anos, fui triatleta e praticado desportos de Endurance. Adoro a Natureza e a aventura. Já percorri todo o Portugal em Bicicleta e com 65 anos em 2009, 30 de Abril fui abalrroado por um automobilista em Lisboa que me deixou prostado na cama do Hospital São Lazaro com o Fémuro esquerdo fracturado e luxação do braço do mesmo lado. Estive para Ligar Lisboa a Macau em 16 Meses em BTT com patrocinios e todo um apoio logistico adquado, só que como a juguslavia estava em guerra o governo Portugês da altura não me quiz dar o salvo conduto necessario para no caso de ser raptado nessa zona conflituosa o que me levou a desistir. Hoje com 66anos, com varias peregrinações a Santiago a pé e pronto para percorrer o caminhop de Este, começando em Olhão e percorrendo a pé 1200 kms. Mas uma das da situações que me atrai dentro de 4 anos com 70 anos é dar a volta ao Mundo em BTT, cumprindo a passagem prevista de Macau. Até lá espero que apareça alguma companhia para um projecto deste teor que tenha a resistencia necessaria, espirito de aventura e saber sofrer em casos complicados, isso será o essencial para uma boa relação de viagem..... abraços Victor Lavoura

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