a caminho da pamir highway

- Estão a sair do país com mais dólares do que entraram. – Disse o militar uzbeque, na fronteira.
- Sim, tivemos de levantar dinheiro. Temos aqui o comprovativo. – Respondeu o Rafael muito calmamente.
- Mas não podem e o comprovativo não vale nada. – Acrescentou o militar trombudo. – Têm de escrever o mesmo valor.
- Mas não temos o mesmo valor. Temos mais.
- Mas têm de escrever o mesmo valor. Não podem sair com mais dinheiro. – Finalizou o militar com um ponto final.
Mudámos o valor, mesmo tendo dinheiro a mais na carteira, e saímos do país, sem revistarem as malas. 
Tajiquistão! 
Nas embaixadas, na Turquia e no Uzbequistão, fomos muito bem recebidos. É nas embaixadas que temos a primeira impressão do país. Na fronteira, a simpatia deste povo mantinha-se. Continuávamos 4numundo, e estávamos os 4 numa grande fila… Não gostamos de esperar mas também não gostamos de passar à frente de ninguém. 
- Precisam de ajuda? – Perguntou um militar sorridente.
- Não, obrigada. Estamos à espera da nossa vez para receber o formulário e voltar para a fila para o podermos entregar e entrar no país. – Disse o Sam com voz de quem precisa de ajuda mas que não quer pedir directamente.
- Venham comigo. – Sorriu o militar.
Entrámos no gabinete, preenchemos os papéis e não foi preciso voltar para a fila. Fizeram-nos o trabalho todo. Por vezes sabe bem ter um tratamento especial por sermos “turistas”.
Já estávamos perto da entrada do país, só tínhamos de preencher um último papel e entrega-lo ao militar mais antipático de todos os tempos. 
Finalmente no Tajiquistão, por baixo do mesmo calor! 


Chegámos a Dushanbe já de noite e não foi nada fácil chegar! A estrada era terrível e num estado degradado. Os condutores aqui são doidos ou burros (preferimos a segunda opção)! Aqui, conduzir com vodka no corpo, é uma coisa cultural e natural! 
Passado 120 kms, chegámos ao hostel onde todos que por lá passam ficam doentes… Montámos a tenda por 5 dólares cada e adormecemos num sono profundo. 
Dushanbe é uma capital calma com pouco para ver. Olhando para ela, sentimos que nos encontramos num país com algumas posses. Grandes construções da antiga União Soviética, grandes carros (droga?) e mais uns tantos valores de desconfiar!
O desejo por uma pizza fez-nos descer até ao centro, caso contrário, o desejo de visitar a capital era nula… queríamos descansar e aproveitar o wi-fi gratuito do hostel
- Tenham cuidado com a água da torneira e quando usarem alguma loiça, certifiquem-se se ela está bem limpa, sem vestígio de água. – Avisou-nos um casal francês, que viaja num tandem (corajosos). – Todos os que ficam neste hostel, acabam por ficar doentes…
A Franscesca e o Sam foram os primeiros a correrem para a casa de banho e a saírem de lá aos “ais”. No dia seguinte, juntei-me ao grupo dos “ais” e até tive de dormir na sala, bem perto da casa de banho. A minha alimentação passou a ser arroz branco ou massa sem condimentos, pior que comida de hospital, mas feita com muito amor pelo Rafael que continuava a comer de tudo com muito prazer, sem “ais”, sem correrias para a casa de banho. “Todos ficam doentes” – menos o Rafael! (eheheh – Rafael)
No dia da partida, acordámos às 5 da manhã. Eu estava como uma zombie… 
- Rafael… não sei se consigo sair hoje… não me sinto bem, estou sem forças, sem energia e voltei a deixar pedaços do meu intestino na sanita, sim, porque só posso estar a desfazer-me…
- Queixei-me.


Ficámos mais um dia com corridas do sofá para a sanita (santo hostel com sanita!) e com grandes dores no estômago. No dia seguinte, acordei melhor. Partimos primeiro que a Franscesca e o Sam, mas depressa nos apanharam numa paragem de autocarro a 20 quilómetros. Estava sem forças e as dores no estômago continuavam. As idas à casa de banho tinham terminado, graças a um super medicamento. Tive 3 dias duros, muito duros, sem forças para puxar a bicicleta. Os quilómetros eram somados muito lentamente com muitas paragens e não conseguia comer o que quer que fosse. Sem forças e sem comer, não ia longe não…
 
Na primeira noite, voltámos a acampar os 4 a 1500 metros de altitude. Estávamos bem contentes com o frio que sentíamos. Há muito que o calor dominava! Mesmo estando frio, eu e o Rafael decidimos dormir ao ar livre, numa das camas-chá. Vesti o meu polar e dormimos quentinhos. Voltei a acordar bem-disposta mas passado poucas horas, a má disposição ataca e as forças vão abaixo… Nesse dia, conhecemos a Athina, uma rapariga da Nova Zelândia que está a viajar sozinha de bicicleta! Ela estava a fazer o caminho contrário, o que significava que já tinha feito a Pamir Highway! Valente mulher!!! Porém, não estava com bom ar… Também ela estava doente e o pior é que não tinha ninguém para lhe prepara o pequeno-almoço, o almoço, o jantar, preparar-lhe o chá, como eu tinha.
- Estás a sentir-te bem? Estás toda a tremer… Rafael, segura na bicicleta dela. – Disse.
Ela estava doente, exausta, cansada e só dizia:
- Só quero ir para casa… - Mas falava-nos dos seus planos e a Europa está planeada - Até o dinheiro acabar- disse-nos. 
Claro que nesses momentos só pensamos em voltar para casa e ficar curados, mas sabemos que todo este mau estar vai passar e vamos continuar a ter prazer no selim e massacrar o rabo.
Quando nos despedimos, eu só pensava, “não me posso queixar, ela está pior que eu e está sozinha. Vá lá Tanya, força nessas pernas, não custa nada!”. Não valia de nada… continuava a sentir-me doente… 


Já não éramos 4numundo. Voltámos a ser 2numundo mas cruzávamo-nos muitas vezes. Temos +/- o mesmo ritmo, fazemos +/- os mesmos quilómetros por dia por isso, é muito difícil deixarmos de nos ver. Nesse dia, fizemos os últimos quilómetros juntos e de novo as tendas não foram montadas. O banho foi tomado no rio frio e castanho mas depois de um dia duro ao pedal, e passar pelo trânsito de vacas, sabe sempre bem! 

 

Terceiro dia e já estávamos fartos da má estrada! Alcatrão aqui é raro encontrá-lo, tudo está cheio de buracos, cheio de pedras e pedregulhos, as nascentes passam pelo meio da estrada formando pequenos rios, os carros passam levantando poeira que somos obrigados a respirar e que se cola no corpo e no cabelo… os dias não foram fáceis mas as paisagens eram incríveis e nem sequer estávamos na Pamir Highway! Nesse dia não chegámos aos 45 quilómetros … Precisava de descansar e não forçar o meu corpo a fazer o que ele não queria ou não podia. O Rafael estava bem mas foi obrigado a parar. Nas subidas, ele salvou-me muitas vezes, deixando a bicicleta dele no topo e vir buscar a minha. Não sei se um dia vou poder fazer o mesmo por ele, pois ele nunca fica doente! (ehehhehe – Rafael)

 

- Estou com desejo de peixe e sinto-me mal por ter este desejo mas a verdade é que estou e só penso nas receitas de peixe da minha mãe… Rafael, mesmo sendo vegetariana, se encontrar peixe e se quiser comer, vou comer. Tu podes continuar a comer as rodelinhas de tomate e os nouddles secos, mas… 
Precisava de comer, de me alimentar em condições. A alimentação na Ásia Central é terrível mesmo para quem não é vegetariano. O meu corpo não se satisfaz apenas com saladas. Tivemos de fechar os olhos e comer o que eles tinham. Comemos muitas vezes o famoso plov, onde não raras vezes temos de separar a carne que eles se esquecem de retirar, aquela que põem só para temperar, mas se não fosse isso, não comíamos nada. É difícil encontrar legumes para podermos cozinhar, não encontramos água sem gás à venda. Não há! Quando pedimos água eles apontam para o Ice Tea
- Não! Queremos água, sem gás! Têm fresca? Não?! Mas esta não, esta tem gás! Gás não! Água!!! Isso são sumos artificiais de maçã!
- Ah! Querem água transparente? – Acabam por perguntar…
Não há água à venda! Temos de encher as garrafas nas nascentes e nos riachos.

Andamos deprimidos com a comida e quase a entrar em desespero. Nessa noite, a massa estava estragada e não tínhamos mais nada para comer. Olhei para o folhado de carne, que um senhor deu, no caminho, ao Rafael. Abri e o aspecto da carne era terrível. Voltei a sentar-me ao lado do Rafael. Voltei para o lado do folhado e voltei a abri-lo e a tentar tirar o máximo de carne que conseguia. Não conseguimos entender como é que eles têm tão má carne… Os animais estão soltos e só comem pasto. Têm tudo para terem uma suculenta carne mas não… O aspecto dela é terrível e dizem que o sabor é como o aspecto… 
Fechei os olhos enquanto comia a massa folhada com restos de molho da carne. Não era bom mas conseguia engolir melhor que a massa, que o arroz e que o pão. Comi metade e passei a noite a arrotar àquele sabor… 
Acordámos para um novo dia. O Sam e a Franscesca estavam quilómetros mais à frente. Deixámos para trás a grande montanha com o nome de Tulipa e continuámos caminho sem saber se seria nesse dia que iríamos subir aos 3250 metros. Já me sentia melhor, bem melhor! Lavámos a loiça do dia anterior num riacho, continuámos na luta da má estrada, acenávamos para as crianças que nos gritam “HELLO!!!”. São “hellos que nos cansam mas são compreensivos… Como queremos que eles reajam? É um dia diferente para eles quando vêem turistas. Elas são crianças que vendem fruta na berma da estrada, que vão de manhã cedo para o campo, que passam o dia montados nos burros, que passam o dia atrás do balcão do mini mercado, que apanham a fruta do chão… crianças de cara suja que estão sempre prontas para sorrir. Gosto quando eles levam a mão ao peito para nos cumprimentarem. Há crianças que correm atrás das bicicletas, que tentam dizer uma ou duas frases em inglês. Oshellos” podem ser cansativos mas se isso os deixam felizes, se a nossa presença, por breves segundos que seja, lhes proporciona um dia diferente, eles podem continuar a cansar-nos com os seus fortes e repetitivos “HELLOS!!!” 


Voltámos a encontrar o Sam e a Franscesca
- Passámos o dia inteiro a falar de comida! Estou a ficar desesperada… - confessou a Franscesca.
Nesse momento, tive vontade de chorar! A comida é o tema principal, por más razões. É mesmo doloroso não ter nada de diferente e bom para comer… o que é doloroso também, foi ter de ficar para trás por causa de um furo.
- Precisam de ajuda? 
- Não Sam, continuem, vamos já ter com vocês. – Dissemos olhando para a minha roda traseira. 
Lindo! As colas que um motorista nos arranjou, não serviram… não tínhamos mais cola, não tínhamos mais câmaras-de-ar… Tentámos tudo e nada resultou. Decidimos trocar a roda do atrelado para a bicicleta e carregar todos os sacos e o atrelado. Não foi fácil… continuámos por mais uma dúzia de quilómetros. Parámos num novo check point e desta vez os polícias foram impecáveis! Até nos deram pão e isso foi uma boa prenda! Não se encontra pão no caminho, ninguém vende porque todos fazem pão em casa! 
Depois de passarmos um grande lago no meio da estrada, vimos o Sam a acenar-nos! Estávamos rotos e chateados com o estado do meu pneu. No dia seguinte, com a ajuda do Sam, conseguimos arranjar o pneu e voltar a montar o atrelado. Depois de um belo jantar, preparado pelo casal francês, montámos a tenda e preparamo-nos psicologicamente para a subida do dia seguinte. O grande dia tinha chegado e será que com ele chegou a boa estrada?

 

1 comentário:

Rodrigo Viterbo disse...

Que post!!! coragem amiga!!!! muita força para os dois! aproveitem que um dia vão-se rir disto, hehehe

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