dos 2 aos 4numundo


 Chegámos à cidade de “sonho” e fomos à procura do hostel recomendado pelos guias turísticos. A escolha não podia ter sido melhor! Hostel Bahodir, um hotel familiar onde nos sentimos parte dessa mesma família. Foram dias de descanso com poucas saídas. O tempo era passado no interior do hostel a conviver com outros viajantes, uns de mochila às costas e outros que, tal como nós, escolheram ter o rabo no selim. Ali o inglês era pouco falado, quem vencia era o francês. Franceses e suíços tentavam “colonizar” Samarkand
 

- E vocês, são de onde? – Perguntaram-nos.


- De Portugal. – Respondemos, sempre com um certo orgulho.


- Portugal?! São os primeiros portugueses que encontro nesta viagem. – ou – Conheci um casal português na Tailândia há 5 meses atrás. Vocês não viajam muito, pois não?


- Pois não… a crise ajuda a ficarmos em casa e o português gosta de ser caseiro. – Respondemos. 

Às 18h saíamos para visitar a cidade que muitos desejam visitar. É realmente uma cidade bonita, mas confesso que depois de ter visto tantas mesquitas, tantas madraças… aquelas eram mais umas com a mesma cúpula azul e os mesmos rectângulos de diferentes tons de azul… mas pronto, tenho de confessar também que não deixa de ser incrível ter à nossa frente aqueles monumentos gigantescos, imponentes, majestosos, monumentos que nos fazem sentir pequenos perante tamanha beleza criada pelo homem.

O que mais me surpreendeu foi o cemitério! O antigo – os mausoléus -  e o moderno. Para visitar o que quer que seja, temos uma senhora à entrada a cobrar… ah, querem visitar sítios turísticos? Para alimentar os olhos e guardar umas belas fotografias no aparelho fotográfico, temos de deixar várias notas na mão da senhora e claro, sendo uma mão turística a entregar, o número de notas, é maior. Chega a ser ridículo o abuso mas descobrimos muitas formas de entrar sem pagar, entrando e saindo pela porta lateral. Nunca formos apanhados mas caso tivéssemos sido, sempre tínhamos a desculpa da nossa profissão:


- Ah, pedimos imensas desculpas mas como trabalhamos em teatro, estamos habituados a entrar pela porta dos artistas… a porta principal é para o público que paga bilhete. – Nunca foi necessário desculparmo-nos e não sei se iriam compreender. 



 Uzbequistão é cansativo pela luta que temos de fazer para conseguir o preço certo ou o preço razoável. Até os polícias tentam ganhar dinheiro pela mão do turista, pedindo 10000 soms para se subir a um dos minaretes para ver o pôr-do-sol ou o nascer do sol e terminam por aceitar 3000 soms. Nos mercados a luta continua. Pedem mais pelo pão, pela fruta, pelos gelados… e quando o preço é certo, a quantidade é menor.
No meio de uma das conversas com os inúmeros viajantes, descobrimos que em Tashkent, na capital, era possível tirar o visto para a China em apenas um dia. Isso, para nós, foi uma boa notícia, pois pensávamos que teríamos de esperar uma semana em Dushanbe, no Tajiquistão. Isso foi notícia para mudar os nossos planos. Apanhámos o comboio da noite – cadeira e não cama, pois era bem mais barato – e fomos até à capital que descobrimos, não ter nada de bonito para ver. O comboio foi terrível! Foi sem dúvida a pior viagem da nossa vida e das próximas vidas, tenho a certeza! As cadeiras não eram cadeiras, nem davam para encostar as costas numa superfície plana e o pior, é que passámos a viagem a olhar para as pessoas deitadas a ressonar. Aos poucos comecei a sentir os nervinhos a atingir o seu auge. 


Tashkent - só o nome assustava pois o termómetro continuava acima dos 40 - valeu a pena: visto da China num dia e autorização para a Pamir Highway, também este num dia, em poucas horas! Para volta para Samarkand, escolhemos o autocarro, além de ser bem mais barato, sabemos como são as cadeira e foi uma festa quando sentimos o ar condicionado! 


Mais uma noite no hotel Bahodir! Foi bom rever as pessoas que por lá ficaram. Deixámos o nosso cartão e uma mensagem colados na parede com imensa história de muitos que por lá passaram e no dia seguinte, estávamos prontos com os pés nos pedais. Saímos à mesma hora que um inglês e um holandês e passámos o dia com eles. Subimos juntos a montanha e juntos estivemos no topo a admirar toda a beleza da natureza. 
Foi boa a experiência de pedalar com outras pessoas. Deu para perceber o ritmo das outras pessoas e perceber que o nosso ritmo não era assim tão mau.


- Não quero mais ouvir-te dizer que vou muito devagar, ouviste Dom Rafael? – Dizia eu sempre que chegávamos primeiro ao topo. 

 


Ver um rio ou água a correr é desculpa para pararmos para um “mergulho”, nem que seja apenas um “mergulho” de pés, cabelos e braços ou apenas cabeça. Sabe sempre tão bem e o corpo agradece o reforço de energia.


Na descida da montanha ficámos sozinhos… Foi boa a experiência por um dia.

 


Nessa noite parámos perto de um rio e vimos um sítio perfeito para passarmos a noite. 


- Vou tomar banho ao rio, vens comigo? – Perguntou o Rafael. 


Preparámos o ninho e fomos para um mergulho. Deixei o Rafael ir à frente. Gosto do lema: homens primeiro.
- Cheira mal aqui dentro… cheiro mesmo mal…


Dito isso, nem um pezinho emergi na água. Aceitei a oferta do banho que um senhor nos tinha dado, num hotel manhoso… o Rafael, também ele aceitou pois ficou a cheirar pior. Hotel manhoso mas com boa água. A noite foi passada sem tenda a olhar para as estrelas. Bastaram os colchões e os sacos cama para acordarmos no outro dia com valentes picadas… 



Novo dia e chegámos aos 8000 quilómetros… e para comemorar, o Rafael teve um novo furo! Foi em Shahrisabz que este feito se realizou. Bela pequena cidade onde Timur – o grande responsável pela beleza do país - mandou construir a sua própria sepultura que nunca chegou a ser usada, pois, aquando da sua morte, a neve na estrada impossibilitou o transporte do corpo, sendo este obrigado a ser sepultado em Samarkand!
 
Visitámos a cidade com as bicicletas pela manhã e continuámos caminho sem destino. De novo um rio e de novo os corpos como bacalhau a demolhar! 


- Eu já parava. – Disse eu.


- Eu também, estou todo roto… - Acrescentou o Rafael.


- Corta aí à direita. – Disse apontado para um pequeno caminho em terra batida.


Um cão fez sinal da nossa chegada e um miúdo veio ao nosso encontro. O terreno da casa era grande suficiente para colocar umas 50 tendas das nossas.


- Podemos montar a tenda para passar a noite? Amanhã partimos cedo. – Explicámos com várias palavras soltas em inglês, russo, uzbek e com gestos à mistura.


Virou costas com um sorriso e foi chamar o pai que não demorou a aparecer. Fizemos a mesma pergunta.
 

- Tenda não! Dormem ali na teabed (cama-chá), é melhor! – Foi o que percebemos e percebemos bem!


Mas que família!!! 5 estrelas! Ali jantámos apenas com um dos homens. A mulher e os filhos traziam a comida aos poucos. Fomos proibidos de cozinhar, o jantar apareceu. A comida ia aparecendo sem nunca percebermos qual seria o último prato.


- Não é preciso trazerem mais coisas, por favor. Isto já é suficiente! Muito obrigada! – Dizíamos mas sem sucesso.


- Preciso de energia para amanhã! Isto não chega! 


Na hora de dormir, mais colchões apareceram.


- Não é preciso mais, estes servem perfeitamente! – Disse eu.


- Serve perfeitamente em Portugal, aqui vocês dormem com dois colchões cada um!


Dormimos todos cá fora mas essa cama-chá foi só para nós. Fomos embalados belo ressonar do senhor mas sem picadas! O pequeno-almoço apareceu bem cedinho pela manhã. Tirámos as últimas fotos e de novo na estrada com o rabo a ganhar bolhas!
 

A estrada mantinha-se plana, o calor mantinha-se vivo e o Rafael recebeu um chapéu - um esconde carecas - de um senhor. Nesse dia estávamos muito preguiçosos. Parámos para almoçar com 45 kms nas pernas. Estávamos sentados numa sombra quando vimos um casal de bicicleta. Depressa os chamámos e depressa eles travaram para virem ao nosso encontro.


Nova história:
4numundo


Eles são ingleses e decidimos pedalar juntos até chegarmos a Dushanbe, no Tajiquistão. Fiquei contente com essa ideia pois não eram dois rapazes mas sim um casal. Era o aniversário do Sam e ele e a Franscesca não queriam pedalar mais naquele dia. Para nós não foi nenhum problema! Pedalámos até encontrarmos um restaurante para jantar e estudar terreno para acampar. 


Jantar: batata frita e salada. Dormida: nas traseiras, eles numa cama-chá, nós no chão com um traço de formigas em cima das nossas cabeças. 

 


Na manhã seguinte acordámos cedinho para juntos começarmos a subir pequenas montanhas. O vento coçava-nos as costas. A paisagem era incrível e a companhia era muito boa! 

Pedalávamos lentamente sem grandes pressas. Foi bom partilhar experiências, ter uma rapariga ao meu lado a pedalar. Ela fala russo e ambos farsi (o idioma falado no Irão e entendido no Afeganistão e no Tajiquistão). Era sempre ela que pedia as coisas, que entrava nas cozinhas e explicava o significado do vegetarianismo - que não bastava retirar a carne do prato para o prato passar a ser vegetariano. Sendo assim, não podendo tirar a carne do prato, voltamos a comer batatas fritas e salada com um ovo estrelado. 


- Não somos vegetarianos mas queremos o mesmo. A carne aqui é terrível! – Diziam eles.


Almoçámos tarde, pois no caminho não aparecia nada… foi das manhãs mais longas! Estávamos com fome, fracos e a arder debaixo do sol! Desejávamos encontrar o mais rapidamente possível um sítio para almoçar e no primeiro restaurante, parámos! 



- Coca-cola. Duas! Duas Coca-colas! – Pedimos em simultâneo com um grande sorriso nos lábios e com os olhos muito abertos!
 

Não somos os únicos a desejar esta bebida! Não sabemos explicar, é mais forte que nós! Só pensamos em Coca-cola e se uma loja não tem ou não está fresca, no momento que nos encontramos a morrer por ela, ficamos desesperados e com má cara!!! Coca-cola! Bebemos aos litros e sabe sempre tão bem! E nada de Zam Zam, de RC Cola, de Super Cola, tem de ser Coca-cola! Eles também veneram a bebida, desde o Turquemenistão!


Ao fim do dia, quando já estávamos à procura de sítio para montar a tenda, um senhor mandou-nos parar. 

A Franscesca trato de tudo e depois traduziu tudo.


- Ele está a convidar-nos para dormir lá em casa.


Os 4 concordámos em passar lá a noite. Estávamos em casa de uma família rica. A comida chegou em abundância e a Franscesca teve uma grande conversa com o senhor e o resto da família enquanto nós os três nos partíamos a rir com as piadas que saiam umas a seguir às outras, da boca do Rafael. Tivemos de por travão com respeito à família e à Franscesca
 

Dormimos os 4, uns ao lado dos outros, no grande parque de brincar da criança que roda as mãozinhas quando cantarolam uma música. 


De volta às subidas e às paisagens de dizer “UAU” de volta às Coca-colas, de volta aos rios e desta vez aproveitámos o rio para um momento íntimo feminino. Ficámos com novas pernas e mais leves, prontas para pedalar mais depressa! 


A estrada é terrível, obriga-me a travar bastante em todas as descidas e nas subidas somos obrigados a andar aos ziguezagues para fugir aos buracos e às lombas que aparecem sem avisar. Eu travo, mas os rapazes não travam. No fim de uma descida, eu e a Franscesca parámos pois não os víamos. Esperámos mais de dez minutos e nada… voltei um pouco para trás, não muito, porque não queria subir contra o vento. Estava um pouco preocupada. Não gosto quando o Rafael fica muito atrás. 


- Ia morrendo! – Disse o Rafael ao chegar.


O atrelado dele saiu durante uma rápida descida e partiu o guarda-lamas. Que susto! Mas nada lhe aconteceu! Obriguei-o a descer mais devagar pois quero chegar a Macau!

 

A paisagem continuava “UAU” e as pessoas continuavam a acharem-nos “UAU”. Somos como estranhas pessoas nos circos de antigamente. A alguns provocamos riso, a outros provocamos um olhar de espanto…
Nesta noite acampámos! Escolhemos uma casa abandonada com uma piscina vazia nas traseiras. Pela primeira vez cozinhámos e soube bem comer algo diferente sem ninguém a perguntar de onde somos. Esta, foi a última noite no Uzbequistão! No dia seguinte, cansados, entrámos na Tajiquistão! 


Foi bom entrar acompanhados num novo país, pedalar com uma rapariga e saltarmos para o disparo da máquina fotográfica, com novos viajantes!   
 

Aqui fica o site deles que vale a pena acompanhar! www.odycycle.wordpress.com

3 comentários:

Cisfranco disse...

Espectacular! Boa viagem até Macau!

tiago pedro disse...

Continuação de boa viagem, apesar de não vos conhecer já vos acompanho quase desde o início!


Um grande abraço

César Fernandes disse...

Porque será que a COCA - Cola tem esse efeito???

;P


Bem amigos, gosto de ver que está tudo bem convosco, e que continuam animados...

Grande abraço pro Rafa e beijinho prá Tania...

Continuação de boas pedaladas...

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