pela estrada esburacada

Uzbequistão! Que alegria entrar num novo país, embora isso não signifique uma descida na temperatura nem sirva de antibiótico. Mal passámos a cancela do novo país, encostámos às boxes. Não podíamos mais. Sentir a nossa sujidade, fazia-nos sentir ainda mais sujos. Duas mulheres sentaram-se ao nosso lado e olhavam para nós com muita pena, abanando a cabeça.

- Vamos tentar pedalar até à primeira terra? São 25 quilómetros, mas se não conseguirmos, acampamos algures. – Propôs o Rafael.

- Vamos tentar. – Respondi sem grande entusiasmo.

Metros mais à frente, somos mandados parar por um senhor que nos queria vender um cartão para o telemóvel. O preço que estava a pedir era muito elevado, elevado de mais. Dizia um preço mas depois dizia outro e as contas nas nossas cabeças não estavam a bater certo… desisti de pensar mas o Rafael continuava a lutar com as contas na sua cabeça…até que desistiu também.

- Tanya, vamos para trás, depressa. Não me estou a sentir bem. Vamos… Compramos amanhã. Estou mesmo muito mal.

Invertemos o sentido de marcha e voltámos para o restaurante da fronteira. Perguntámos se seria possível passarmos lá a noite, no terraço, e obtivemos uma resposta positiva tendo até direito a um banho! Mudámos de roupa e lavámos os trapos sujos. Até já nos estávamos a sentir melhor. 

- Apetece-me batatas fritas com ketchup! – disse, num ataque de desejo. 

- Tens a certeza?

- Temos que comer! Vais ver que nos vamos sentir melhor. Está a apetecer-me e se me está a apetecer, tenho de obedecer ao meu corpo. 

Dito e feito. Duas doses de batatas fritas, duas doses de salada e acordámos no dia seguinte como novos! Mas não foi isso que nos fez fazer mais que 25 quilómetros! 25 chegou! Aterrámos num hotel baratucho em Alat e dormimos a tarde toda. Foi mesmo necessário esse pequeno luxo para recarregar energias. Por falar em luxo: luxo foi sentir nas mãos um enorme maço de notas! A nota mais alta no país é de 1000 soms e esse equivale a 30 cêntimos (+/-). Somos obrigados a andar com a carteira com uma barriga de grávida de 9 meses! 

Dia 23 de Junho pedalámos até Bukhara - o Pilar do Islão - uma das pérolas do país. Refiro a data por esta ser especial – aniversário do Rafael! Um Snickers com uma grande vela branca, serviu de bolo de aniversário e os proprietários do hotel cantaram-lhe os parabéns em uzbek


Passeámo-nos na cidade mas não tivemos a sensação de nos passearmos numa cidade com mais de 1000 anos. Tudo está muito bem restaurado, muito bonitinho, muito limpinho. O calor continuava a atacar e era impossível sair antes das 6. 


Começámos a perceber como funcionam as pessoas do país e não gostámos muito… O turista para eles, é uma nota de dólar. Percebemos isso quando fomos pela segunda vez à internet, depois de nos terem informado do preço.

- Quanto é a internet? – perguntámos mesmo sabendo à partida, o preço.

- 3000 – Respondeu o jovem rapaz.

- Sério? Não é 1000/1500?

- 3000 para todos. 

Não parecia estar a mentir. Aceitámos o preço mesmo achando caro. Começámos a ver as pessoas que lá iam e achámos impossível essas pessoas pagarem aquele preço. Uma rapariga saiu do seu computador e quando esta foi pagar, eu saí porta fora e fiquei à espera dela. Quando ela saiu, perguntei-lhe:

- Falas inglês?

- Sim, um pouco.

- Quanto é que pagaste por uma hora? - Estava mesmo curiosa.

- 1000.

- Ah… Obrigada. – E os nervos começaram a borbulhar… entrei e perguntei ao Rafael já com uma cara de poucos amigos. – Posso dizer o que penso? Posso-me passar com este gajo?

- Porquê? Quanto é que é?

- 1000!!!

- O quê? Ele está a levar-nos 3 vezes mais? – E a sua cara transformou-se.

Armámos a barraca! Que confusão lá dentro! O argumento de jovem rapaz, foi que por sermos turistas temos mais dinheiro, por isso temos de pagar mais! Como detestamos isso! Detestamos preços turísticos e detestamos o facto de acharem que somos ricos. Ricos meninos, sim, isso somos! A discussão foi tão grande, que saímos sem pagar. Fim da história, fim da discussão. É cansativo ter sempre de lutar para ter o preço correcto. Atiram para o ar preços ridículos, preços que por vezes chegam a ser mais caros que na Europa. Não têm a mínima noção do que pedem… e no final, a vergonha não lhes cola à cara!

 

Se as pessoas no Uzbequistão são simpáticas? Sim, são, fora do local de trabalho, fora dos mercados e dos restaurantes, são muito simpáticas, muito hospitaleiras, sempre prontas a ajudar! 

Saímos de Bukhara e fomos em direcção a Samarkand – ainda mais turístico mas, até lá, tivemos 4 dias tranquilos numa estrada esburacada. Parávamos muitas vezes para beber um sumo gaseificado, preparado com alta tecnologia! Os sabores são vários: Coca-cola, Fanta, kiwi, cereja e mais uns quantos estranhos sabores. Um pouco de concentrado num copo e terminam o enchimento com a água gaseificada. Não é a melhor bebida do mundo mas é refrescante e é motivo para uma pausa na bicicleta. Parar significa falar com pessoas… e isso é cansativo quando estamos cansados e não queremos falar com ninguém. Confesso que sou mazinha… consigo ignorar por completo as pessoas e passo a batata quente para o Rafael que faz o maior esforço para responder às mesmas perguntas de sempre. Eles não reparam que os estou a ignorar pois dirigem-se sempre ao Rafael, ao homem. Quando são mulheres, tento transformar o meu cansaço em simpatia. Acreditem, não é fácil, depois de vários quilómetros. Compreendemos que as pessoas têm curiosidade em saber um pouco sobre nós, quem somos, de onde vimos, mas é terrível quando nos perguntam de onde somos e respondemos Portugal e eles:
- Ah! França?

- Não. Portugal.

- Ah! Alemanha?

- Não! Portugal.

 - Ah! – E vemos na expressão um grande ponto de interrogação…

Depois de Bukhara, tivemos a nossa primeira noite com as pessoas do país. Parámos numa pequena aldeia no meio do nada. Lanchámos à porta de uma família e depressa uma senhora apareceu com melancia cortada, pão com 5 dias, tomate, pepino e sal. Aproveitámos para pedir autorização para montarmos a tenda mas ela não percebeu muito bem o que queríamos. Telefonou a uma amiga para servir de tradutora. Quando chegou, percebemos que o seu inglês era de um nível fraquinho, mas o suficiente para percebermos que não podíamos montar a tenda, pois o marido não estava em casa e ele não era assim uma boa pessoa… mas que éramos muito bem-vindos em sua casa, onde já ficaram vários viajantes em bicicleta. Conhecemos os seus pais e estes trataram-nos como reis e encheram as nossas reais barrigas! No dia seguinte as nossas reais barrigas, não gostaram do que entrou… Leite quente com um pedação de manteiga a boiar… Não é bom de manhã, nem a qualquer hora.
Saímos preguiçosos e isso afectou a nossa manhã no pedal. 45 quilómetros depois, parámos para fugir ao calor e para  dormir um pouco. Vimos uma bela sombra que ficava num terreno particular. Pedimos autorização para podermos dormir um pouco e mais uma vez fomos acolhidos de braços abertos. Tirámos para fora os nossos colchões mas não chegámos a usar. A mãe e as filhas voltaram com uma grande manta, com colchões, almofadas e com comida. Há que comer para bem dormir. Dormimos bastante naquela tarde. Quando acordámos e estávamos prontos para partir, elas imploraram para que passássemos a noite lá. Não podíamos ficar, tínhamos feito poucos quilómetros mas, a verdade, é que estávamos cansados ou melhor, preguiçosos. Nesse momento de vai e não vai, o marido apareceu e pronto… tivemos de ficar. Enquanto preparavam o jantar, tomamos conta da filha de 4 anos e tivemos muitos carinhos da menina bonitinha mas que sabia ser mazinha e matar formigas com um dedo e que tinha os pés mais sujos que os meus! Num desses momentos, vimos dois rapazes a correr. Eram eles! Os que andam a correr a Rota da Seda! Não queríamos acreditar que nos tinham ultrapassado! Quando os vimos, foi no segundo dia do Turquemenistão… ao que parece, andaram a correr 70/80 quilómetros todos os dias… Há pessoal muito doido!
Passámos a noite com a família e tivemos um dos melhores jantares! No Uzbequistão é difícil comer bem e com variedade… aqui só sabem fazer 3 pratos e todos eles são com carne. Se dizemos que não comemos carne, não há problema, eles vão ao prato de sopa e retiram a carne, deixando os pedaços de gordura a boiar e depois ficam admirados de não querermos, pois a sopa já não tem carne… A nossa alimentação neste país tem sido à base de batata frita e ovos fritos ou mexidos com massa. Ah, e também batata frita e há dias que temos ovos… e claro, tudo a boiar em óleo!

Depois de um bom pequena almoço, este sem carne e sem leite com manteiga, subimos nas nossas meninas e continuámos caminho. No fim do dia, vimos um grande tanque a deitar litros e litros de água! Custa acreditar que o país tem falta de água quando vemos tanta água a ser desperdiçada. Esse foi o sinal para pararmos, não para reclamar com o desperdício mas para olharmos com cara de babados para aquela água fresca. O proprietário das bombas veio ao nosso encontro.

- Será que podemos tomar um banho? – Perguntámos com as nossas belas caras sujas.

- Claro que podem!

Estacionámos as longas bicicletas e depressa o Rafael se despiu e por pouco que não ia ficando sem os boxers com a pressão da água. Eu cá tive mais dificuldade em tirar a roupa, pois estavam 3 adolescentes a olhar para mim, mas a vontade de ter um belo banho foi maior! Respirei fundo e tirei a roupa e depressa eles mudaram de lugar. Afastaram-se e começaram a apanhar cerejas das árvores. No fim do meu banho e já vestida, eles aproximaram-se com um sorriso tímido e ofereceram-me as cerejas que apanharam. 

- Não querem passar a noite aqui? – Perguntou o dono.

- Porque não. Temos tenda, podemos montá-la?

- Sim mas quando terminarem, juntem-se a nós para beberem um chá.

Montámos a tenta e fomos para a mesa. O chá não veio sozinho. Apareceu o pão e uma salada de tomate e quando o meu estômago se encontrava satisfeito, apareceu uma enorme sopa de beringela 100% vegetariana! As pessoas são realmente incríveis e generosas!
Um novo dia e a mesma estrada esburacada levou-nos até Samarkand, cidade de sonho para muitos!

2 comentários:

João Neves disse...

Não vos sigo desde o início mas desde que o faço que estou cativado pela vossa aventura. (Embora a parte do esforço me assuste). Boa sorte para o resto da viagem.

Anónimo disse...

relax..n pensem na meta mas sim no caminho

keep on going

A

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