2numundo no paquistão

- Não é possível tirarem o visto aqui. Como têm a embaixada do Paquistão no vosso país, é lá que têm de o tirar. – Disse-nos o homem de óculos grandes.

- Mas estamos de bicicleta, como podemos tirar o visto? 

- Aqui não podem tirar. Têm de voltar ao vosso país. – Respondia-nos, olhando-nos com certa pena.

- Mas dá para tirar na fronteira? – Perguntámos esperando pelo “sim”.

- Talvez… Talvez sim… Talvez não.

- Mas dá?

- Talvez… 

Este pequeno diálogo, aconteceu na Turquia, na embaixada do Paquistão.

Estávamos confiantes. Conhecemos e lemos em muitos fóruns, muitas pessoas que passaram a fronteira sem problema, e no autocarro, éramos muitos estrangeiros sem o visto no passaporte e nenhum de nós parecia estar preocupado em relação a isso.
O fim da China foi marcado com o fim do alcatrão… Fim do alcatrão, bem-vindos ao Paquistão!

Curva contra curva, sempre a descer, entre montanhas imponentes. A estrada fazia com que os nossos corpos, por várias vezes, saltassem da “cama”. Estávamos mesmo por cima das nossas bicicletas e muitas vezes, ouvimo-las gritar. Fazia doer o coração! 

Finalmente em Sost! A nossa primeira terra paquistanesa! 

- Quem não tem visto? – Perguntou um paquistanês, num inglês perfeito. Ninguém tinha  - Podem passar para aquela sala e voltar para aqui. Bem-vindos ao Paquistão!

Simples e rápido! Bastou uma fotografia e dinheiro, para termos um belo visto no passaporte. Só não entendemos, porque que é que Portugal é o país da Europa que paga mais, a seguir à Inglaterra! 53 dólares! Paga e cala! Pagámos sem refilar e fomos dar os primeiros passos.

Nesse mesmo dia, apaixonamo-nos pelo país! Estávamos a flutuar e sentíamo-nos bem. 

Encontrámos um hotel pois não quisemos sair dali tão cedo! As pessoas são humildes e simpáticas. É difícil encontrar uma pessoa que não fale inglês. Já não estávamos habituados a tanta facilidade, nem estávamos habituados a preços tão baixos! O quarto duplo com casa de banho no interior, por apenas 2,90€ e jantámos no próprio hotel por 3,30€. A comida estava deliciosa e não parávamos de o afirmar! Comemos até não conseguir mais, fomos dar uma voltinha para ajudar a digestão e voltámos para o quarto de onde tínhamos uma vista de fazer cair os queixos!

No dia seguinte partimos, curiosos e com vontade de conhecer e ver tudo! Estávamos admirados com a simpatia das pessoas e com os traços delas. Graças a Alexandre, o Grande, as pessoas são-nos mais familiares e foi no Paquistão que encontramos mais homens bonitos. Certas alturas, ficámos na dúvida se são pessoas locais, ou turistas com roupas de cá… 

Chegámos a Passu depois de muita subida e descida, instalámo-nos no hotel Passu Inn, onde fomos ficando e ficando. Estávamos numa pequena aldeia que nos dava a sensação de estarmos em Portugal. Conhecíamos aquele cheiro, aquela verdura... Mesmo nestas pequenas aldeias as pessoas falam inglês e não são apenas os jovens. Eu continuava nas nuvens e não parava de dizer: 

- Estou a adorar! As pessoas são lindas! As crianças são tão lindas e educadas! As mulheres têm um ar feliz e os homens são tão respeitadores, tão humildes! 


Não estávamos à espera de um país tão acolhedor! A verdade é que estamos na zona mais letrada do país. Estamos numa zona que anos atrás, era um reino independente. Estamos curiosos para conhecer o resto do Paquistão, mas sabemos que pouco vamos conhecer pois continua a ser um país perigoso e o turista não tem acesso a todos os lugares, pela sua segurança.
 
Uma das grandes atrações de Passu é a ponte suspensa e os grandes glaciares. Nós apenas fomos à ponte e vimos o glaciar de longe. A ponte é uma experiência fantástica mas que mete respeito! Anos atrás, havia duas pontes mas uma delas foi destruída pelo mau tempo. 

Conseguimos chegar à ponte na segunda tentativa. No primeiro dia, fomos de mochila às costas, caminhar umas boas horas… não encontrámos o caminho e demos por nós a tentar passar um caminho perigoso. O rio estava mesmo por baixo de nós e qualquer deslize, podia levar-nos até ele. Senti as gotas de transpiração a caírem pela cara abaixo. As minhas mãos estavam suadas e comecei a sentir medo… bloqueie. Olhava para o Rafael que, devagar tentava chegar ao outro lado, e toda eu transpirava ainda mais.

“Se um pé me escapa, escorrego por aqui abaixo e não tenho onde me agarrar.” Era o pensamento de ambos.

- Não avances mais. Vou voltar para trás, isto é muito perigoso. – Disse o Rafael com cara séria. 

Respirámos fundo quando sentimos que estávamos fora de perigo. 

- Não pode ser por aqui! Tem de haver outro caminho! – Dizia, olhando para todos os lados, tentando perceber onde este podia estar.

- Mas hoje não caminho mais! Estou morto! Ficamos mais um dia e voltamos amanhã.


E assim foi, ficámos mais um dia. No dia seguinte, encontrámos o caminho! Este era bem mais seguro, fácil e levou-nos direitinhos até à ponte suspensa! A ponte é enorme e os primeiros passos são feitos lentamente! O Rafael estava atrás de mim e eu só gritava:

- Sai! Isto é apenas para uma pessoa! Pára de abanar a ponte! Pára de te rir! Sai! Isto é só para uma pessoa!!! Não te rias que a ponte abana mais!

Depois de alguns passos e vários gritos, já me sentia mais confiante. Valeu a pena voltar! Aconselhamos vivamente.

Jantávamos no hotel e quem cozinhava e nos servia, era o proprietário, o senhor Ghulam. Oferecia-nos sempre mais comida, que guardávamos para o almoço do dia seguinte. Dias mais tarde, ao visitar o Fort Baltit, em Karimabad, soubemos que o senhor Ghulam, tinha sido o último prisioneiro do forte. Não matou, nem roubou. Ele queria que o reino independente pertencesse ao Paquistão e tentou convencer a população a não pagar as taxas.

Estivemos com o último prisioneiro sem o saber e a verdade é que gostámos muito dele! Muito calma, bom cozinheiro, muito humilde, que ficou admirado quando lhe dissemos que vimos 3 aranhas gigantes na sala de estar… A verdade é que vimos! 3 Aranhas peludas, que me fizeram andar de gatas no quarto, a investigar todos os cantos. 

Deixámos Passu satisfeitos! Fomos a caminho de Karimabad, porém não é possível fazer o caminho todo pela estrada. Em 2010, houve uma grande avalanche que bloqueou o rio, fazendo um dique natural e com os vários rios que vêm da montanha a chegarem ao leito do rio principal, as águas formaram um lago e 4 aldeias ficaram submersas.

São 32 quilómetros de barco e para quem conhecia essas 4 aldeias, são 32 duros e longos quilómetros. O rio serpenteia as grandes montanhas escuras e para quem nunca passou por ali, fica admirado com tamanha beleza e passam a ser 2 horas de um belo passeio de barco!

Saímos do barco e à nossa espera estava uma subida bem íngreme e cheia de poeira! Os nossos pés enterravam-se… Estávamos cansados e sujos! Parámos mal vimos um restaurante e esvaziámos os pratos mal eles chegaram à mesa. De novo na estrada, ou de novo naquele mar de pedregulhos e poeira. Não estava a ser fácil e quando faltavam menos de 5 quilómetros para chegar ao destino, a estrada parecia querer chegar ao céu! “Não podíamos terminar o dia mais calmamente? Já não chega?” 

Com a língua pendurada e os ombros descaídos, chegámos a Karimabad e ao hotel que nos ia acolher por duas noites mas que acabou por nos acolher por quatro noites. Sentimo-nos bem aqui. À nossa volta, tudo é verde e tudo é grande! As pessoas querem cumprimentar-nos e trocar umas palavrinhas em inglês. As mulheres esperam que as cumprimentemos para sorrirem com vontade e retribuir o cumprimento.
 
Visitámos o forte, passeamo-nos pelas estreitas ruas que nos deixam sem folgo de tão íngremes que são. Fomos perseguidos por crianças que queriam ser fotografadas. Fiquei muitas vezes com cara de parva ao ouvi-los falar inglês mas quando digo inglês, estou a referir-me a um inglês correcto, com frases bem construídas! 

Amanhã prometemos pegar nas bicicletas e partir. Custa sempre sair dos sítios que se gosta e aqui no Paquistão, tudo é uma surpresa!

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