dia não

Acordámos com a testa franzida. Estávamos chateados, mal dispostos! Os dois polícias acordaram com a nossa movimentação. Não falavam… Estariam com dores de cabeça? Má disposição? “Não viajamos com Gorusam… Pena em não poder ajudar” 

Este foi o “dia não”! Um grande “dia não”! Sentia-me irritada, chateada, agressiva. Não conseguia cumprimentar ninguém! Sentimo-nos enganados quando parámos para beber um chá. Teve a lata de pedir o dobro do preço! Neste “dia não” tinha de acontecer tudo! Mas tudo e tudo negativo! O trânsito mantinha-se insuportável mas neste “dia não”, não me controlei nos insultos. 

- Tenho vontade de gritar! Que nervos! Está tudo a correr tão mal! E logo hoje!!! – Estava triste e sem vontade de ser simpática com os homens que passam com as motorizadas bem devagarinho para me olharem as pernas, com uma ligeira baba no canto do lábio. 

Estamos num novo Paquistão que não tem nada de parecido com a zona norte do país que tanto gostámos. Com aquela zona que não queria fazer parte do Paquistão. 

Tive de parar para me acalmar. O Rafael não estava nos seus melhores dias. Respondia às perguntas dos homens, muito friamente, não estava com muitos sorrisos nem muitas conversas. Forçava o meu sorriso quando as mulheres me sorriam. A elas, eu queria cumprimentar e disfarçar a minha má disposição. Agora aos rapazes… ignorava-os! Para quê respeita-los se não me estavam a respeitar?

- Já que não podes falar com as mulheres deles, nem com às irmãs ou mães, já que não lhes podes tirar fotografias, eles também não têm nada que falar comigo!

Houve um rapaz que teve o azar de me acariciar a cara, pensando que não ia parar a bicicleta… Não pensei! Travei a fundo, saí da bicicleta e comecei a correr na direcção dele. A expressão dele mudou! Ficou atrapalhado e repetia o pedido de desculpas. Eu não pensei e se ele não começasse a correr feito louco, eu juro que não sei se me segurava! Atravessou a estrada, foi a sorte dele! 

A minha respiração estava descontrolada. Cheguei perto do Rafael, que ia à minha frente e que não tinha percebido muito bem o que tinha acontecido.

- Juro que se ele não tivesse fugido, tinha-o agredido! - Não foi bem essa palavra que usei mas aqui, fica melhor.

Parávamos para nos acalmarmos, parávamos para nos hidratar e pouco comer. O Rafael andou enjoado da comida, e não muito famoso do estômago. Já não podia ver Dall (lentilhas) nem chapati (pão) à frente, assim como picante! (E ainda não chegámos à Índia) 

Estávamos com 70 quilómetros e o dia não estava a melhorar e só piorou! O carro vermelho estava parado mas com o motor a trabalhar. Ultrapasso, olhando sempre para o espelho do condutor, para perceber se ia começar a andar ou não. O caminho estava livre, ele ficou fora do meu campo de visão, olhei em frente e… chão!

Não queria acreditar! Ele veio contra mim! Acelerou e acertou-me! Senti o embate do carro e “esborrachei-me” no chão. (Não encontro palavra para descrever o meu acto de “deslizar” no chão. O Rafael escolheu a palavra). “É desta que bato em alguém!”. Quando me levantei, o Rafael já estava aos murros ao carro e aos gritos com o homem que não saiu do carro. “Não lhe batas na cara, não lhe batas na cara.” Ia-me repetindo essa frase, até chegar perto do carro. Não lhe bati na cara mas o meu punho acertou-lhe com força no braço. Não com aquela força que desejava mas… ele nem pediu desculpas, nem quis saber se estava bem ou se a bicicleta tinha partido alguma coisa. Arrancou, mas deixou-me tempo de acertar no carro, com toda a minha raiva. Só tinha vontade de chorar mas segurei as lágrimas pois tinha-se juntado um grupinho de pessoas. 

Peguei na bicicleta e continuámos caminho até às primeiras bombas de gasolina. Estava bem, tive muita sorte! Muita sorte mesmo! Estava com as duas pernas pisadas e uma pequena ferido no joelho e cotovelo. Doía-me o ombro direito mas nada de grave. Não parti nada, nem fiz grandes feridas, e a maior sorte, foi de não ter passado nenhum carro nesse momento! 

O Rafael abraçou-me.

- Só tenho vontade de chorar… - E sem me controlar, chorei baba e ranho. Deitei cá para fora tudo o que podia, longe dos olhares das pessoas. Mais calma, volto para a minha bicicleta, para perceber os problemas que ela sofreu. Bonito! Fiquei sem mudanças traseiras. Lembrei-me da minha antiga Myka… O Rafael estava a tentar reparar a peça. Abriu-a e como não estava a conseguir ver nada, tentou tirá-la da bicicleta para perceber onde estava o problema.

- Não faças isso, ainda vais partir isso…

- Ups… Desculpa…

Fiquei sem reacção. O “dia não” estava a correr mal e estava! Agora a minha bicicleta estava empanada como eu. Só queria terminar o dia e fechar-me num hotel sem ver ninguém!

Chegámos a Lahore , depois de 105 quilómetros e mesmo tendo um couchsurfer, preferimos ficar sozinhos num hotel. Medo do mosquito do dengue que anda a assustar as pessoas de Lahore? Ele que venha, para festejar o nosso dia de aniversário de viagem! Um ano de Eurásia! Belo aniversário no “dia não”...

4 comentários:

Filipe disse...

Ohhh
Deixem lá esse dia, aproveitem para festejar pois novos melhores dias virão!!!
Parabéns!!!

Cisfranco disse...

Depois da tempestade vem a bonança...
Torço por vcs. Calma!

nomadiclas disse...

Parabéns malta! um ano em grande! que venham muitos mais.
cá vos esperamos na península ibérica!
beijinhos no coração para a tânia, que bem precisa depois daquele toni do carro! um abraço apertado ao rafael.
força aí no pedal.
alexandre e ana

Anónimo disse...

FORÇA AÍ PESSOAL!
AS PARTES MAIS AZEDAS DA VOSSA AVENTURA VÃO SER AS MAIS RECORDADAS
UM DIA ,TEM QUE SE TER CUIDADO COM ESSE PESSOAL
ESTOU A SEGUIR TAMBEM PELA RADIO A VOSSA AVENTURA ,DO NOSSO zÉ CANDEIAS NA ANTENA 1 ,E MUITA GENTE QUE NÃO TEM NET JÁ FALA EM VOÇÊS.
CPTS.
CTEIXEIRA

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