os primeiros dias de férias

Cá estamos nós de férias! Há muito que esperava este momento. Um mês nos comboios indianos…estava curiosa, confesso e o Rafael ia voltar aos velhos tempos. Mochilas às costas e lá fomos nós, às 3 da manhã para a estação de Velha Deli.

Estação ou hotel 1000 estrelas no céu? Tudo ao molho e fé em Deus, seja ele qual for - podem escolher um dos 33 milhões, os hindus não levam a mal. Mulheres, homens e crianças,deitados no chão, cabeça para norte, cabeça para sul, cabeças tapadas pelo lençol, cabeças encostadas ou a confundir uma barriga em almofada.

Tchai, tchai, massala tchai” e lá vai o tchai men aos ziguezagues, contornando o mar de gente, tentando não se salpicar. “Tchai, tchai, massala tchai”A voz aguda, alti-estridente, parece não incomodar os hóspedes da estação.

Horas de acordar. Os guardas já estavam com os longos bastões para aqueles que necessitassem de um despertador mais potente. Ninguém podia ficar no chão, não entendemos porquê mas quando é ninguém, quer mesmo dizer ninguém e os bastões, para além de despertador, também servem para fazer entender a palavra - ninguém.

O comboio que nos ia levar para Jaipur, estava na linha e pronto a partir. Carruagem Sleeper class S3. Verificámos os números, arrumámos os sacos e “até já”, o corpo pedia para dormir. O corpo dos indianos funciona de forma muito diferente do nosso. “Tchai, tchai, massala tchai”, o tchai men percorre as carruagens às 5:30 e muitos já estavam sentados nas cadeiras que deixaram de ter a função de cama.Podiam falar assim, pois há muita gente que ainda quer dormir, como nós por exemplo, mas não! Todos falam alto e todas têm vozes agudas.Tchai, tchai, massala tchai” mas será que os tchai men’s têm que passar em alguma audição para poder vender chá?


Primeira experiência num comboio indiano – Adorei! As horas passaram depressa, fui as vezes que quis à casa de banho, estiquei as pernas, descalcei-me, sentei-me à chinesa no  banco, bebi chá, café, vi muitos pés sujos e a cheiraram mal, dormi com o meu lenço a fazer de lençol e sai feliz! Estou de férias!


Ficámos a 10 quilómetros da cidade. Quem nos hospedou, vivia em Amber onde podemos visitar o Amber Palace. Fizemos parte da onda dos turistas, visitando o que todos visitam mas o melhor, foi mesmo passear pelas estreitas ruas de Amber. Visitámos um dos muitos tanques que o Rajastão possui, visitámos um dos muitos Templos que a Índia tem, onde fomos benzidos por um Sadhu e em ambos os sítios, não vimos um único turista.


Na manhã seguinte, fomos para Jaipur e senti-me uma vez mais como dinheiro fora da carteira. Uma moeda para a cabeça, outra maior parao tronco, os braços e pernas são feitos com notas de 100$ que ondulam com o meu caminhar em câmara lenta. Quero comprar coisas mas vejo-os todos com um gorro preto na cabeça, deixando apenas os olhos e boca à mostra. Não compro nada. Compro mais tarde, se essa tarde chegar.


Visitámos o famoso palácio, Hawa Mahal, construído pelo Maharaja Sawaj Pratap Singh, em 1799. Foiconstruído com muito amor e muitas janelas, para que as suas 50 e pouquinhas mulheres, pudessem observar a rua, sem que ninguém lhes pudesse roubar a beleza.




Vimos muito amor nas paredes e colunas desse palácio e muitos eu-sai-de-casa-todo-bonitinho-para-elas, que tentam arranjar uma modelo fotográfico, de preferência estrangeira, para registarem a sua ida ao palácio.


Mochila às costas e comboio em direcção a Pushkar. Incrível este meio de transporte que defende a vida animal, principalmente as baratas! Estas não incomodam mas chamam a atenção. São pequenas e rápidas. Pensei em dormir com os auscultadores nos ouvidos mas… Sou menina ou quê? Elas não vão querer contar-me segredos durante a noite!




Deixámos o comboio e apanhámoso autocarro, onde o Rafael fez um amigo. Esse amigo ofereceu-lhe um cartão do hotel onde, por coincidência, é ele o proprietário. Barato e com piscina. Humm, fiquei com curiosidade. Saímos do autocarro e dirigimo-nos para o centro.

- O hotel do teu amigo, não fica para aquele lado? – Perguntei com a piscina na cabeça.

- Preferia ficar no centro.



Fomos para o centro,onde tive a sensação de estar numa qualquer rua estreita com barraquinhas, noAlgarve em pleno Agosto. A diferença é que não são os ingleses, nem os Alemães que preenchem essas ruas. Aqui, os Israelitas vencem, tendo já o menu em todos os restaurantes, em hebreu.

No centro da vila, está um gigantesco tanque, onde foram atiradas algumas das cinzas do Gandhi. Fomos até lá, à procura desossego.


- Não podem tirarfotografias. – Diz um miúdo, ao mesmo tempo que nos oferece umas pétalas e uns grãos de arroz. – Têm que vir comigo, por aqui, para irmos para aquele lado,para poderem atirar para as águas as pétalas, como forma de agradecimento edepois já podem tirar fotografias.

Tivemos um curto-circuitonas cabeças. Não podemos tirar aqui? Temos que ir para ali? E não podemos irpor aqui? Depois já podemos tirar fotos? E vamos agradecer a quem? Se tirar uma foto antes, um raio cai sobre mim? Estamos na Índia, vamos é seguir o miúdo e ver onde a história acaba. Subimos as escadarias e no topo, estava o pai dele que esperava, com um prato cheio de pétalas e arroz.

- Têm que agradeceraos Deuses primeiro.

Temos é que encher os teus bolsos não é?

- Eu conheço muito bem o teu negócio! Não queremos, não estamos interessados. – Disse o Rafael, virando costas, já com o dedo pronto para dispara com a máquina fotográfica.

O senhor ficouirritado com a história do negócio mas não fizemos caso.

É incrível aquantidade de israelitas por aqui! O Rafael diz que vêm fazer a rota da droga. Não podemos critica-los! Eles que se divirtam! 2 anos de tropa para as raparigase 3 anos para os rapazes… No final, claro que querem libertar todos os pensamentos e sentirem-se relaxados!

- Logo, depois do jantar, querem aparecer no nosso hotel? Vamos ter uma guitaloflautilopia. – Diz um israelita que conhecemos no dia anterior.

Ficámos sem reacção.Ter o quê? Guitaloflautilopia? (Claro que acabei de inventar a palavra pois não fiquei com o nome na cabeça…)

- Sabem o que é, não?– Perguntou.

- Sim, deve ser para aí um instrumento musical. – Palpitou o Rafael.

- Não. Vamos pôr droga numa bebida e passar assim a noite. – Esclareceu-nos. (Também não me lembro se a droga era para ser misturada com uma bebida ou com comida… tenho de andar mais bem informada sobre esse tema)

Um instrumento, ah ah ah!!! Que risota! Agradecemos o convite mas a nossa passagem pela Índia, tem uma rota diferente.

Voltámos a apanhar o autocarro - onde este queria o dobro daquilo que pagámos pelo mesmo trajecto e simplesmente ignorámos - e fomos apanhar mais um comboio com baratas e pés sujos que tanto gostámos. Passámos pela rua que ia dar ao hotel do amigo do Rafael e ficámos arrependidos por não ter querido espreitar e sim, tinha mesmo piscina. Fora do grande centro, encontra-se sossego, no centro, encontra-seroupa, pulseiras, almofadas, cachimbos… muita informação que tem um preço e que esconde toda a informação da vila, nas lindas fachadas das casa.


Voltámos a passar à noite no comboio. Estávamos sozinhos no compartimento. 8 lugares à nossa disposição! Tivemos várias visitas de um grupo de jovens estudantes. Não nos incomodaram, até gostámos da companhia!
Saímos todos em Mumbai. Temos como destino Goa, mas não arranjámos comboio directo. Chegámos a Mumbai da parte da manhã e o comboio que parte para Goa, parte bem à noitinha…

As horas custaram apassar, as pernas estavam cansadas de caminhar… Passeámo-nos pelo mercado de rua, fugimos do cheiro do mercado do peixe, procurámos um jardim eestendemo-nos na relva, comemos comida ocidental, olhávamos para o relógio e ashoras não passavam… tirámos fotografias, discutimos com um homem que esbofeteava outro homem e chamámos a polícia, comprámos livros, bebíamos sumos e maissumos, ficámos de boca aberta ao ver vibradores à venda em montes de barraquinhas que enchiam os passeios, olhávamos para o relógio e o tempo não passava… 



Fotografámos a estação Victoria Terminus, de onde o primeiro comboio da Índia partiu e agora é Património Mundial da Humanidade, protegido pela UNESCO. Tem como nome Chhatrapati Shivaji Terminus, mas é pelo nome Victoria Terminus que as pessoas continuam a conhecê-la e foi láque apanhámos, finalmente, o comboio para Goa!


Comboio para Goa! Estamos perto, pertinho!

2 comentários:

Anónimo disse...

Continuo na vossa companhia, por essas ruelas de cheiros, cores e sabores. Imagino que estas fotografias sejam apenas uma pequena amostra das centenas que vocês tiram.
Gostaria de ver mais desenhos fabulosos da Tânia.
Abreijos
PP

Pipa disse...

Gostei muitooo de ler esta página. Fiquei com uma ideia da índia, completamente diferente da que tinha :D. Espetacular.

Beijinhos, boas pedaladas.

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