E assim foi

E assim foi: bicicletas no comboio e um grande sorriso de orelha a orelha!
Ao nosso lado, estavam dois americanos (pensamos nós) e dois coreanos (seriam?). “Olá de onde são? Estão a viajar apenas pela Índia? Estão a gostar? Vão ficar quanto tempo? E a seguir?” Tantas perguntas que podiam ter sido colocadas até chegar a hora das pálpebras pesarem como chumbo mas não… Cada um fechou-se em literatura. Fizemos o mesmo… Eu, com o Gonçalo M. Tavares embalada pelas palavras de “Uma viagem à Índia” e o Rafael percorreu muitos quilómetros com o Gabriel García Márquez e “O amor nos tempos de cólera”.
Cálcuta! Depois de uma noite mal dormida, chegávamos à grande cidade que o Rafael tanto gosta. As nossas meninas fizeram boa viagem e depois de as carregarmos com os sacos, fizemo-nos à estrada, às laaargas estradas! Nunca estive em Londres mas senti um je ne sais pas quoi de londrino. Porque será…
Quando chegámos à estrada principal para os turistas, o Rafael foi em busca de um hotel e eu fiquei de guarda às bicicletas.
Passado meia hora…
- Temos duas hipóteses. Mas quando vires os quartos, vais chorar. Está tudo cheio e é tudo caro. Estas hipóteses são as únicas possíveis…
- Pronto, o que queres que te diga? Qualquer coisa serve… - Estava cansada de mais para começar com esquisitices, eu que não sou esquisita.
 Entrámos no primeiro hotel “o melhorzinho” e saímos de lá aos palavrões quando o dono, ao ver as bicicletas, nos pediu mais dinheiro para elas poderem lá ficar. Não aceitámos essa injustiça e reclamámos.
- São as regras da casa. – Dizia o mal-encarado.
- Quais regras? Quero ver essas regras! – Dizia o Rafael sem tentar manter a calma.
- As regras estão na rua, podem ir procurá-las!
E fomos mas sem primeiro discutir e difamar aquele sítio! Lá está, eles não precisam de nós. Está tudo cheio, está sempre tudo cheio por causa dos voluntários para a fundação da Madre Teresa. Se não formos nós a ficar, são outros, por isso as regras estavam na rua… Só nos restava a pior hipótese e lá fomos.
- Vai ver primeiro os quartos e escolhe tu. – Disse o Rafael.
- Mas só temos esta hipótese… o que é que queres que escolha?
O dono do hotel, homem de poucos sorrisos, mostrou-me o primeiro quarto, mesmo ao lado da recepção, terrível sítio para ficar por causa do barulho que os próprios empregados e donos faziam. A humidade decorava o quarto e só de olhar para ele, senti-me ainda mais suja…
- E qual é a outra hipótese? – Perguntei bem triste.
Ficava no andar em cima, mesmo em frente a um grande terraço. A humidade era disfarçada com desenhos que revestiam o quarto, tal como uma pessoa que disfarça o mau cheiro com perfume e desodorizante. Quarto escolhido, corda estendida, banho tomado, roupa lavada e estendida, mesa cheia de tralha, sacos-cama abertos e… cá estamos!

Concordámos com uma frase que se encontrava numa das paredes: “300 rupias por este quarto é um roubo!” De facto, é!
Tivemos um casal canadiano como vizinhos; uma gata com três filhotes que tentava colocá-los dentro do meu saco-cama; uma família de cães que nos adoptaram e já conheciam tão bem o nosso assobio de chamamento; um menino e uma menina que roubavam os nossos mimos e usavam as nossas pernas como cadeiras. Passámos os dias a caminhar sem destino, na grande cidade que parece um grande mercado. Não procurámos nada, apenas perdermo-nos. Comíamos e comíamos, sempre na rua, sempre barato e sempre delicioso! À noite, convivíamos no terraço do hotel, mas terminava sempre mal, quando um dos empregados, à meia-noite vinha dizer que eram horas de recolher. O quê?! A ideia não agradava ninguém e tentávamos ignorar o rapaz que se mantinha ao nosso lado tipo estátua.
- Querem vir para o nosso quarto? – Atirei para o ar, pois não gosto de pressões.
Assim foi. A estátua desapareceu e nós continuámos a trocar histórias e aventuras.

10 da manhã e batem à porta. Levantei-me.
- Têm de pagar quarto. – Disse o empregado.
Já nos tinham avisado que isto iria acontecer pois acontece todas as manhãs, mas não queríamos acreditar que pudesse ser verdade. Fiquei burra a olhar para ele.
- Claro que sei que temos de pagar! – E fechei-lhe a porta. Que lata!
Quando estávamos prontos para sair, fomos pagar e não pude deixar de avisar.
- Não queremos que ninguém, nin-guém, venha bater à nossa porta, para dizer que temos de pagar. Sabemos as nossas responsabilidades. Estamos no quarto número 30, não se esqueça! Nin-guém!
- OK, OK.
Gostei da sinceridade do OK e da promessa cumprida.
Estávamos na nossa última cidade da Índia e de uma coisa tenho a certeza: não vou sentir saudades das pessoas. Há coisas que sei que vou relembrar e rir-me às gargalhadas. Vou recordar a confusão, a sujidade e até sentir saudades. É realmente um país incrível, obrigatório de visitar! Mas as pessoas deixaram-me triste e ficaria triste comigo se um dia sentisse saudade delas. A pobreza não é desculpa, o número imenso de população não é desculpa! Estamos contentes por partir? Estamos! Vamos querer voltar? Claro que sim, mas noutras condições, noutro tipo de viagem, com outro tempo e cabeça e com outros planos e trajecto.
Deixámos a nossa marca na parede do hotel e partimos para fazer os últimos quilómetros nas estradas indianas! Ah… Já estou a sentir saudades disto! Ahahahaha, estou a brincar!!!
Deixámos o hotel à 5:30 da manhã, chegámos ao aeroporto às 6:30, desmontámos as bicicletas, embrulhámo-las e às 9 da manhã estávamos prontos para partir mas tivemos de esperar muuuuito tempo pois o avião descolava ao meio-dia…

Andávamos a dizer a meio mundo, que pedalávamos com uns 15 quilos cada um… Não queríamos acreditar no valor que sumámos ao pesar as malas… 60 quilos! Para não pagarmos mais pelo excesso de peso, levámos uma mala a mais para dentro do avião. Foi o conselho da simpática hospedeira. Fomos os últimos a entrar no avião, pois as malas que levámos foram revistadas, tim-tim, por tim-tim. Até a nossas roupas interiores foram espalhadas em cima da mesa.
 
- Estou cheia de fome! – Dizia, olhando para o menu com fotografias apetitosas.
- Não pedi nada para comer. A viagem é só de duas horas…
- Não pediste nada?!
Silêncio…
“A viagem é só de duas horas.” Chorar ou não chorar? Como explicar ao meu estômago que vai ficar duas horas sem comer, mais não sei quanto tempo para entrar no novo país com o carimbo no passaporte, mais o tempo que vamos demorar para montar as bicicletas e procurar algo para comer longe dos preços caros, típicos dos aeroportos? “Explica lá isso ao meu estômago, oh Rafael Polónia.
Silêncio…
Já sentia o cheiro a comida e depressa devorámos o pequeno pacote de batatas fritas. Um pequeno pacote a dividir por dois, onde é que já se viu isso! Oh pobre de mim, que miséria, desgraça das desgraças…
- Tanya Ruivo e Rafael Polónia? Vegetariano?
Música para os meus ouvidos! O avião já mergulhava nas nuvens quando a hospedeira veio entregar-nos a nossa refeição. Sim, o Rafael tinha pedido, mas não se lembrava.
“Morremos e chegamos ao céu de avião? A morte é assim?” Heaven I’m in heaven

Hora de aterrar. O aviso para colocarmos os cintos ligou e esse foi o sinal para um indiano (sim, ainda estava a avistar indianos) se levantar.
- Senhor, senhor, sente-se por favor. - Entreviu uma bela hospedeira.
- Tenho de ir à casa de banho.
- Sente-se por favor.
E sentou-se com aquele sorriso que me deixa os cabelos em pé. O avião ainda estava longe de ter parado quando ouvimos muitos cintos a desapertarem-se. Tooooodos indianos com foguetes no…  A hospedeira insistia em mandar sentar as pessoas. Houve um que a ignorou. Continuou caminho pelo corredor, tirou a sua mala e voltou a sentar-se, sempre com o tal sorriso.
O avião parou e agora sim, podíamo-nos levantar.
- Não acredito… - Dizia o Rafael – Aquele gajo já está a pôr aquele porcaria à boca! Quero ver onde é que ele a vai cuspir.
Já estávamos num novo país mas ainda estávamos rodeados de indianos!
Carimbo no passaporte e… Tailândia aqui vamos nós!!!!
“Esquece os indianos, esquece os indianos, esquece os indianos, esquece os indianos, esquece os indianos”

2 comentários:

Daniela Brito disse...

É tudo a escupir nas Vossas coisas!!! adorei o "Spit here"... ahahahaha

HD disse...

Boa viagem para a Tailandia!
:)
HDias

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