De templo em templo, sempre a subir

Foi muito duro chegar a Takhek, confesso. Psicologicamente, não estava bem e o mesmo se passava fisicamente. Fiz um grande esforço para fazer em dois dias, o que supostamente seria feito em três, para assim, ser possível passarmos, não duas mas sim, três noites na cidade com pequenos toques franceses.

Fui premiada com umas massagens às pernas para não me queixar, quando o Rafael mostrou-me os seus cálculos.

- Não podemos ficar 3 noites… Pelas minhas contas, amanhã já deveríamos estar na próxima terra. Vamos ter de ficar apenas duas noites, ok?

“Ok?! O que é que queres que diga? Que não está OK?”

- Sim. Tudo bem mas não penses que volto a pedalar como doida para acontecer o que está a acontecer!

Em Takhek, pouco ou nada há para ver. Fotografámos umas casas com arquitectura francesa e pouco mais. Matámos saudades de batatas fritas com maionese, ketchup, mostarda e sal, e isso foi o ponto forte da nossa estadia nesta terra. (Ok as massagens também foram.) Esse jantar foi passado com um casal francês que anda a viajar há já meio ano, mas não em bicicleta e isso explica o estômago de passarito que ambos têm, pois o prato não ficou limpo como costumámos deixar os nossos.

- Querem a minha salada? Não toquei nela. Veio com a comida mas não a quero… – Perguntou ele.

- Não vou comer o pão, querem? – Perguntou ela.

Claro! Vamos lá agora dizer não… É a vantagem em conhecer pessoas que andam com a mochila às costas.

E pronto, fim do descanso. Estava preparada psicologicamente para dias duros. Sabíamos que o trajecto seria montanhoso, mas não havia como fugir a ele. Venha! Pelo menos, não teremos a monótona crista de galo que tanto detesto!

Estávamos a pouco menos de 200 metros de altitude e sabíamos que teríamos de passar aos 1400 para chegarmos a Phonsavanh, sítio onde iríamos deixar as bicicletas e apanhar um autocarro para Luang Prabang.

Quando sabemos que os dias serão duros fisicamente e que temos que enfrentar montanhas, o nosso corpo ganha nova energia e ficamos com novo ânimo. No fundo, gostamos de montanhas - até um certo ponto, pois há montanhas que se armam em grandes e não gostamos nada do seu nariz empinado!

Cá estamos, prontos para a luta: máscara, óculos de sol (para quem não os perde ou parte), lenço na cabeça (chapéus há muitos e foi só por isso que perdi o meu) e música bem energética para não deixar as pernas perderem forças! Digam lá se não estamos bonitos! Uma verdadeira família Jackson!


Não fomos abaixo no primeiro dia! Estávamos contentes com a nossa prestação, com o suor que ganhámos, com o sol que nos queimava… mas chegar ao fim do dia e perceber que tudo o que subimos não ajudou na soma da altitude… Continuámos com os “pouco menos de 200 metros”… As subidas davam luta mas estávamos divertidos e só nos ríamos quando víamos a placa a dizer: “Agora vais subir, e esta tem como inclinação, 18 graus. Ahahahahah”

- Ahahahah, 18 graus? Parece ter 45! – Diziamos muitas vezes.

No fim da subida aparecia uma grande descida… Não é bom sinal, pois vamos ser obrigados a voltar a subir o que acabamos de descer… Afinal, vendo bem as coisas, continuávamos numa crista de galo, bem maior, mas estávamos bem mais animados, “graça-Deus, né?”

Voltámos a ficar em templos. Tomámos-lhe o gosto!

Pedimos autorização para montar a tenda e o monge, com rugas na cara, não só a deu como nos mostrou onde podíamos tomar banho. Aproveitámos a ausência dele, para nos colocarmos em trajes menores, e tomar uma banhoca ao ar livre, como fazem por cá. Banho tomado e uma carrinha apareceu com os pequenos aprendizes.


Alegria das alegrias! Os pequenos monges saltaram da carrinha, gritado “Falang, falang”, que quer dizer, estrangeiros ou franceses, se traduzido à letra. Eles observavam-nos de longe, metiam-se connosco – como quem não quer a coisa – imitando-me a imitar o gato, ou o cavalo, ou a cabra… Trocávamos sorrisos. Foi neste templo que conseguimos o maior contacto possível, com os monges (mesmo sendo aprendizes).


Ao que parece, não somos só nós a ter o gosto em ficar em templos. Depois de dois dias em luta com as subidas que terminavam com uma grande descida, voltámos a querer ficar perto dos monges. Voltámos a ser bem recebidos e voltámos a ter uma grande e bela árvore, como encontramos um pouco em todo o lado, aqui no Laos. Estávamos sentados numa mesa, mais para lá que para cá… O nosso pescoço cresce uns 10 centímetros ao avistar um rapaz a entrar pelo portão na sua bicicleta e logo a seguir, uma rapariga, também ela com os pés nos pedais.


Franceses, lá está, para não fugir muito à regra. Compraram as bicicletas em Bangkok e fizeram-se à estrada super, hiper leves! Também eles vinham à procura de autorização para montarem a tenda. Autorização dada e tenda montada.

Passámos o fim da tarde à volta da mesa, a trocar histórias e a hora da “cama” chegou, quando a garrafa de vinho tinto – francês, atenção – ficou vazia. “Bonne nuit!”

Da terceira noite num templo, pouco ou nada temos para dizer… Assim como o caminho. Subir aos 1400 metros, parecia ser já impossível… terminávamos os dias com os “pouco menos de 200 metros” … “É impossível subir até aos 1400. Ou começamos a subir a sério ou estamos redondamente lixados!” Ambos tivemos este pensamento, em diferentes alturas do dia e em diferentes dias…

Voltando aos templos. Houve um que foi diferente dos outros. Entrámos meios desconfiados porque percebemos que estava ainda em construção e por isso, ainda não estava habitado. Homens e mulheres encontravam-se ali, uns a trabalhar outros sentados a ver trabalhar. Não há monges mas há um grande espaço para montarmos a tenda e não tivemos problemas em receber uma autorização. Fizeram-nos sentir em casa! Encheram-nos o tanque com água e ficaram à espera, para nos verem molhadinhos, a passarmos o sabonete pelo corpo. Desta vez, não me iria pôr em trajes menores! Tinha comprado um sarong, e usei-o – a saia que as mulheres usam e que serve para se taparem na hora do banho. Elas ficaram contentes ao ver que também possuía um e que o soube usar – com alguma dificuldade, mas estou a melhorar! As crianças estavam a adorar o espectáculo e nós estávamos a gostar de sentir o corpo a ganhar um novo cheiro!

Montámos a tenda e ficámos sozinhos, naquele grande espaço! Éramos os novos monges, mas ninguém veio benzer a comida… Tivemos de cozinhar, e terminámos a noite à luz da vela e a ouvir uma musiquinha calminha. Sentíamo-nos bem e prontos para mais um dia duro, que se avizinhava…


Uma das novidades, nesta nossa odisseia, não nos beneficiava muito… Novas pontes estavam a ser construídas mas as antigas, já tinham sido destruídas, deixando-nos sem opções na travessia… Pezinhos na água e lá íamos nós. Tantas pontes que estão em construção! Tanto pezinho na água, tanto mergulhinho para refrescar foi dado! Ao início pode ser divertido e apelativo para a fotografia, mas depois… Ufa, chega!

Outra novidade foi termos montado a tenda numa escola! Estávamos protegidos da possível chuva e quem nos deu as boas-vindas, foram vietnamitas simpáticos! As crianças rodeavam-nos, mantendo uma distância de segurança. Elas sorriem muito, cumprimentam felizes, mas quando nos aproximamos, elas fogem com cara de quem viu um morto, neste caso, dois. Não foi fácil conseguir uma foto com elas mas lá se aproximaram devagarinho (ou o monstro mordia)! Fim da foto, fim da confiança e de novo a distância de segurança.

Foi nesta escola, que vimos pela primeira vez, as explicações, de como usar as “sanitas”, bem diferentes das nossas. Para muitos podem ser uma grande dor de cabeça, como eram para mim, não pelo facto de não as saber usar mas apenas por não querer ficar na posição obrigatória. Deixamos aqui as explicações e exemplos de casas de banho, para poderem imaginarem-se nelas. Boa sorte!



Tivemos dias divertidos mas subir aos 1400?

Parávamos nas pequenas aldeias para um suminho e ingerir algumas calorias para retomar caminho com mais força. Numa das paragens, vimos um “falang” na sua bicicleta, a ser puxado por uma mota! Que batoteiro!!! Eles deram meia volta e vieram ter connosco – franceses, lá está! Começaram ambos com uma bicicleta mas depois acharam melhor venderem uma e comprar uma mota. Estivemos os quatro a olhar para o mapa e achámos impossível subir o que supostamente teríamos que subir. “Se calhar só temos que aturar este sobe e desce monstruoso até Phonsavanh”.

Como podia ser possível? 1400 metros? O certo é que foi… Tudo num dia, para terminar a história. Já não tinha dentes para puxar a bicicleta… O alcatrão era alternado com terra batida e muita poeira, o que não facilitava a nossa tarefa. Mantínhamos a máscara na cara mas tornava-se cada vez mais difícil respirar… “Com uma mota a puxar é bem mais fácil é! Batoteiro!”

Sobe, sobe, sobe e… um miúdo a dar a bomba para encher o pneu da bicicleta e uma miúda a olhar para ele, à espera… Decidimos ajuda-los. Usámos a nossa bomba e depressa vimos que não valia de nada continuarmos com aquele movimento repetitivo. O pneu estava furado… Mãos à obra! De furos entendemos nós! Virámos a bicicleta de pneus para o ar, tirámos a câmara-de-ar para fora e… não queríamos acreditar no que estávamos a ver… Um antigo furo, não foi remendado com remendos próprios. Foi tapado com um largo elástico, que dava voltas e voltas, no mesmo sítio, proibindo o ar de sair. Tirámos o elástico e os miúdos observavam-nos em silêncio. Furo remendado e… pfuuuu, havia outro…



Não saímos dali sem os furos estarem devidamente tapados. Enchemos os quatro pneus e oferecemos a cada um, uma das nossas obras de arte e lá foram eles, com as suas bicicletas sem mudanças.


Sobe, sobe e parecia que a subida não tinha fim… Esperava ver uma paisagem mais apelativa, mas desiludi-me um pouco… As montanhas estão despidas e o tempo estava tristonho…

- Mais um esforço. Amanhã vai ser sempre a descer! Phonsavanh fica num vale, a 200 e poucos metros de altitude! – Informou-me o Rafael, com pingas de suor a cair testa a baixo.

Será? Olhem para mim a rodar a ponta do indicador, na ponta do nariz. Hummm…

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