Fica num vale? Qual vale?


Olhem para mim a continuar a rodar a ponta do indicador, na ponta do nariz. Hummm… “Mais um esforço. Amanhã vai ser sempre a descer! Phonsavanh fica num vale, a 200 e poucos metros de altitude!” Pois sim…

- Quando é que começamos a descer? – Ia perguntado sem obter resposta.

Estava curiosa para ver esse tal vale. Muito curiosa. Estávamos a poucos quilómetros do destino e sinal de descida? Nada! Sobe, sobe, sobe e topo! Avistava uma bela descida que… subia lá no fundo. Quando cheguei ao topo, o Rafael já lá estava. Improvisou um belo descanso para a bicicleta e estava a filmar, dizendo que agora iríamos descer.

- Descer? Sim, mas vamos subir lá no fundo, não viste a estrada a subir? Não vamos descer muito, não, vais ver.

- Vamos, vamos, Phonsavanh fica num vale! – Teimava no vale…

Quando voltámos a encontrar-nos - pois ele sobe bem mais rápido que eu - ele estava a fazer outro vídeo, dando-me razão. Mas claro que tenho razão! Voltámos a subir numa terrível estrada e estávamos cada vez mais perto do destino - do “vale” como ele diz.

Chegámos ao “vale”, sem nunca termos descido… mas qual vale qual carapuça! Estávamos bem altos, sentindo frio à noite. Tanta subida e pouco prazer nas descidas. Não recebemos o chupa-chupa, como recompensa final…

Depois de dias duros, chegávamos prontos para repousar! Estacionámos as nossas meninas e dissemos “até breve, coisinhas lindas dos pais, princesas fofas, doçuras, descansem bem filhotas, heroínas, ai tanto pozinho nas correntes, fofinhas!”

Descanso total, pelo menos para mim que estava assustada com um quisto que não parava de crescer na virilha. “Se ele mexer, não há problema”. OK ele mexe, mas confesso que estava assustada, pois nem conseguia pedalar como gente grande… Tinha de me sentar de lado para parar de o trilhar. Descanso absoluto, estava prometido.

Tínhamos outro objetivo em Phonsavanh, visitar a planície dos jarros. Tivemos a brilhante ideia de alugar uma motorizada para fazer essa nossa visita e a louca ideia de levarmos a motorizada para Luang Prabang – Ui doidos!

- Quando era miúda, o meu irmão deixava-me conduzir a DT dele. Não percebia muito bem de mudanças e meti-as ao calha… - Disse, recordando esse tempo.

- Como não sabias meter as mudanças... Basta ouvires. - O professor sabichão falou.

Esta foi uma pequena conversa que tivemos, dias atrás e depois tivemos a tal doida ideia. Ia ser uma nova experiência e estávamos entusiasmados! O Rafael foi ter umas pequenas lições, antes de alugarmos a motoreta.

- Tiras tu as lições e amanhã, quando tivermos sozinhos, eu experimento. Não deve ser difícil. Ainda há pouco vi o senhor a dar umas lições a um rapaz. Não somos os únicos nabos! – Dizia, contente pela nova experiência!

Antes da lição, ficámos uns bons minutos sentados à beira da estrada, atentos aos pés das pessoas que conduziam o grande bicho com motor. Só nos riamos!

O Rafael estava pronto para a aula. Arrancou aos solavancos e deixei de o ver… Voltou e:

- Não sei não… Isto é muito estranho. Não sei se vou ser capaz… Isto das mudanças é muito estranho…

“É estranho? Não basta ouvires? Eu tinha uns 14 anos ou menos quando o meu irmão me deixou conduzir… o meu ouvido não conhecia muito bem as diferenças sonoras… É estranho… Muito me contas, oh professor!”

Resumindo: Achámos por bem não arriscar fazer uma viagem de 300 quilómetros, sem segurança, nem confiança… e para o bem estar do pai do Rafael. Ficará para uma próxima.

Agora, a planície dos jarros… Não dá para ir a pé. Motorizada, estava fora de questão. Eu estava no meu repouso absoluto. Resultado: O Rafael foi sozinho na sua menina e eu fiquei a cumprir a minha promessa para ver o quisto a desaparecer.

O Rafael chegou encantado da vida!

- Fiz 56 quilómetros!

“Ainda bem que não fui.” Pensei. Claro que fiquei tristinha quando vi as fotos. Estava ali, perdi a oportunidade… Mas fechei os olhos e imaginei-me lá. Pronto, está visto. Pedregulhos enormes, espalhados num vasto terreno! Consigo imaginar-me lá. Muito bonito.

O Rafael gostou muito do seu passeio. Ficou impressionado com o espaço e com os enormes jarros. Seriam para guardar as cinzas dos que se foram? Seriam para encher de vinho, para a grande festa depois de uma victória qualquer, dum imperador qualquer sobre outro imperador de olhos atravessados qualquer? Gosto da segunda opção, mas acho-a linda de mais para ser verdade… Ainda hoje, não se sabe ao certo, para que terão servido todos aqueles gigantescos jarros em pedra…

56 quilómetros depois, ele regressou com um sorriso e todo transpirado. Ponto final parágrafo.

Somos pessoas que gostamos de sofrer e não aprendemos com os nossos erros.

- Apetece-me ir ao indiano. Há aqui um restaurante e dizem que é muito bom. – Sugeriu o Rafael.

Vamos! Estávamos a precisar de sabores diferentes e comida indiana fora da Índia, é bem melhor. Comemos bem, não haja dúvida! O que caiu mal, foi a hora de pagar… O preço não coincidia com o que tínhamos calculado. Havia um engano… Olhámos para a conta e vimos que o café estava com um número estranho e mais elevado.

- Há aqui alguma coisa mal… O café não tem este valor no menu. – Protestou o Rafael.

- Tem sim. – Respondeu o indiano simpático.

- Não, não tem. – E apontámos o valor correto.

- ah… Desculpem-me.

“Desculpem-me”? Mesmo fora da Índia eles enganam? E nós, sem medo do lobo, fomos enfiar a cabeça na boca dele. Pode ter sido um engano inocente… Hummm terá sido assim tão inocente?

Bem, vamos esquecer o sucedido e continuar com a calma que temos vindo a ter e vamos lá para Luang Prabang, a cidade mais "bonita e bem preservada" do sudeste asiático, como diz a Uñesco. Não fomos de motorizada, fomos sim, numa carrinha com mais 6 pessoas. Há alguns meses que não entrávamos numa carinha… A experiência foi tenebrosa, angustiante e só pensávamos nas nossas meninas que ficaram no descanso, em Phonsavanh. Tudo será contado no próximo post. Fiquem atentos!

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