A Rota da Pérsia - o início

Acordei em Lisboa, depois de ter passado uma bela noite na conversa com amigos, pelas ruas estreitas da capital e de ter descansado o meu corpo, massacrado pela ansiedade do últimos dias, numas almofadas no chão improvisando uma cama. Perfeito!

O dia amanhecia e do quarto ou quinto andar do apartamento onde estava, podia apreciar já o prédio em frente. Nada de novo na paisagem. Ao longe, um avião ou outro em rota ascendente, o meu futuro tão próximo. Depois dum pequeno-almoço tostado a queijo da ilha, coloquei o capacete que me servia e arrancámos de mota pela cidade, um saco à frente, outro atrás, coisa mínima, que quem me visse pensaria que iria só de fim-de-semana. Roupa suja-se, roupa lava-se, aí está o fenómeno do travel light!

Check-in e a ansiedade voltava, não fosse esta a responsabilidade de, pela primeira vez, viajar com um pequeno grupo da Papa-Léguas, agência para quem trabalho levando pessoas, entre outros destinos, ao Irão! Escala em Istambul, a capital das capitais, mas até lá, 4h30 de viagem. Sentado à janela, pensava já se conseguiria adormecer desta vez, já que sou possuidor de uma capacidade inacreditável de me ver impossibilitado de fechar os olhos e dormir em aviões e autocarros. Tem as suas vantagens, sim: ver as expressões estúpidas que faz quem dorme, conseguir ver amanhecer e anoitecer e acompanhar diferentes ressonares, como se de um catálogo se tratasse. Mais do que isso, nada.

Ao meu lado, um casalinho de férias “Tudo Incluído” que viram em Istambul um destino diferente a aliciante. Uau, que loucura depois das Maldivas, República Dominicana e areais do Brasil. Durante toda a viagem disfrutaram de toda a comida que lhes foi servida até ao limite – cheguei mesmo a oferecer-lhes a minha, já que me havia esquecido de pedir vegetariano e o frango não estava com boa cara... parecia-me morto, pelo que recusaram – jogaram, viram filmes, ouviram música, exploraram mapas e premiram o ecrã táctil ao limite, dormiram ao limite, riram ao limite e leram na diagonal todo o guia que levavam sobre a Turquia. O “Tudo Incluído” não pressupõe, afinal, termos direito a tudo? À minha frente, um indiano em negócios, com toda a certeza, tal era a pinta do homem, que emborcou pelo menos quatro whiskies, três coca-colas e uma cerveja, porque lá fora a coisa custa dinheiro e aqui dentro, tenho direito, então há que me embebedar!

Istambul e uma paragem de  quase 4 horas esperava-me até ao próximo voo. Juntei-me a um grupo de portugueses, vizinhos da cidade, que viajavam para as Maldivas. “Praias paradisíacas!” – diziam! Um dia talvez, quando não tiver mais o que fazer ao dinheiro!

Outro avião se seguiu, este mais composto: homens de bigode, mulheres de cabelo tapado e jovens, muito jovens, eles e elas, que aproveitaram até ao último momento a liberdade que lhes é dada dentro dum avião turco, de usarem calções, camisolas justas ou cabelo á mostra, sem que se cubra por detrás dum lenço. A revolta continua.

Já em Teerão, vejo uma equipa de futebol masculino ser aplaudida à chegada, enquanto que um dos membros me pergunta de onde sou e à minha resposta, aponta para o peito, onde estava colocado o símbolo do país e me diz: “Carlos Queiroz!”. Troco dinheiro no primeiro andar, pois no rés-do-chão o câmbio é do pior e passeio-me pelo pequeno, mas internacional aeroporto, como que me ambientando às palavras, ao ritmo e aos sorrisos tímidos, porém curiosos, dos iranianos, que ao mínimo sorriso meu, se desfazem e inclinam a cabeça de maneira genuína e pura! É tão bom regressar, penso e logo a seguir, sinto-me um privilegiado de poder mostrar a outras pessoas este país que tanto me fascina!


O táxi leva-me ao centro da cidade, numa velocidade assustadora a que já me habituei por aqui, fugindo das lombas, ziguezagueando os demais e ultrapassando filas, ora pela esquerda, ora pela direita, ora mesmo em direcção contrária, se isso for sinónimo de caminho mais curto! À saída, despede-se com grande pompa, ou não estivesse eu no Irão, desejando-me o melhor, ou foi isso que percebi, no pouco farsi que sei “regatear”!


Porém, o dia ainda não havia terminado e nem eu sabia que me esperavam mais umas tantas horas de cansaço…

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